domingo, 27 de junho de 2010

O Velha - XI




No momento da morte, o Velha agonizava profundamente… equivocado.  E toda a equipa liderada pelo médico Pedrinho se mantinha abismada num mutismo… de espanto. O Dr. Pedrinho soçobrava ao peso da memória de dezenas de moribundos, no leito de morte, como se quisessem despedir-se, olhando-o com estranheza,selando com o silêncio da morte palavras que teriam dito se o reconhecessem. Alguns fixavam-no e até pareciam acusá-lo de estarem a ser despedidos mas outros, nada disso.  
Apesar da insuportável dor, não queria sequer tentar impedir que lhe viessem à memória as últimas palavras de uma criança de quatro anos, que tinha sido colhida por um comboio, quando tentava colocar uma pedra sobre o carril. Não fosse a demora em estabilizá-la na linha férrea e não teria escasseado o tempo para retirar-se em segurança, com as duas pernas a salvo e vitoriosa da ousadia.
Entrou no bloco operatório, na tarde de um domingo de festa. Por todo o lado, a subida à primeira divisão dos Convictos Futebol Clube era festejada por multidões embriagadas. Os médicos de urgência mal tiveram tempo para ouvi-la dizer, numa voz que os fez arrepiar «mamã, vamos brincar?».
Passados minutos, o corpo estava frio. O Dr. Pedrinho sentou-se no canto da sala, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cara entre as mãos. Por fim, assoou-se e, recompondo-se, perguntou à Dr.ª Vitória «está a pensar no que vamos dizer e no modo como vamos dizer aos pais? Eles estão lá fora… talvez com esperança». A Dr.ª Vitória acenou com a cabeça, afirmativamente.


2 comentários:

Djabal disse...

«Sobe ao pódio dos teus pés/Que o prémio te sinta /Mesmo que não sejas vencedor/Te diga que o és/Canta o hino /Que aprenderes/A olhar para longe /Do que fores/Capaz/Que o silêncio/No fim /Seja murmúrio/De paz.»

Esta é a minha recomendação Doutora Vitória, apenas um murmúrio de paz, restou dos escombros.

Meu amigo, permita-me esta brincadeira. Ela veio da releitura dos textos, para não perder o fio da meada, saiu-me esta de enfiada. Fique com um grande abraço amigo.

Tere Tavares disse...

Não se pode perder O Velha. Até por que ele é imperdível! Embora ele mesmo tenha dito «I know not what tomorrow will bring» torna-o sempre presente.

Abraço