quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O livro de todo o conhecimento(XII)

É difícil decidir o que fazer nesta tendência continuada de descida das cotações dos títulos em Bolsa. Vender agora? Só acreditando que a queda se irá acentuar. Mas quando será o momento para voltar a comprar? E se as cotações continuarem a cair mais e mais? O meu primeiro pensamento, depois de uma desvalorização de dez a vinte por cento de alguns dos principais títulos tem sido comprar, não é vender, porque acredito que eles vão recuperar de um dia para o outro. O optimismo ou a expectativa positiva, muitas vezes, impede as pessoas de tomarem decisões sensatas. Mas o pessimismo pode levar a decisões precipitadas de que nos arrependemos.
Deixei o computador ligado e fui tomar o pequeno-almoço. Ainda era cedo para ligar a Teresa. Era preciso ouvir o que havia, afinal, para saber sobre maus tratos, violações, masoquismo, aberrações sexuais… . E saber junto da polícia qual foi o procedimento seguido no que respeita ao meu automóvel.
Não estava com fome, mas engoli a custo uma torrada com manteiga e uma chávena de leite quente com chocolate. Contrariamente ao dia de ontem, que começou normalmente, no dia de hoje, já comecei com muitos problemas para enfrentar.
Às nove horas e dezassete marquei o número de Teresa, mas não atendeu. Liguei para a enfermeira Cândida.
- Sim, sim, Dr. Veríssimo?
- Olá enfermeira, bom dia, está tudo bem?
- Ainda bem que ligou, que aflição, meu Deus! Tentei inúmeras vezes contactá-lo, mas o Dr. tinha o telemóvel inacessível. Já estava preparada para ir à polícia se não conseguisse localizá-lo. Que é que lhe aconteceu ontem?
- Como? O que é que soube?
- Pouco depois de lhe ter telefonado ontem a avisar que havia muitas coisas escabrosas que deveria conhecer sobre Teresa e A. Carrancas, recebi uma mensagem anónima a dizer que o carro do Dr. foi encontrado abandonado sobre a ponte D. Pelayo.
- Só isso?
- Só.
- E foi. Eu também soube disso pela própria polícia.
- Que é que aconteceu?
- O que eu sei e só isto lhe garanto é que enquanto estive no tribunal com a Teresa, alguém me furtou o carro e eu vim para casa de táxi.
- Ai que alívio! Puxa!
Fiquei apreensivo, mesmo preocupado, com a origem e o possível significado da mensagem anónima que alguém enviou à enfermeira. O furto do automóvel não aconteceu por acaso e havia sinais de estar relacionado com algo mais em que me queriam envolver. Mas o que seria? Não quis que a enfermeira percebesse quanta importância eu dava àquela mensagem e, fingindo ignorar o teor da mesma, mudei de assunto.
- Enfermeira Cândida, não consegui contactar com a Teresa há momentos, por isso lhe liguei.
- Teresa está em casa mas tem o telemóvel desligado até tarde.
- Era para saber dos tais pormenores escabrosos a que se referiu ontem e que podem ter relevância para o processo.
- Se não se importar, acho preferível de tarde, às 15horas. Pode ser?
- Pode, está combinado então.
Pela janela pude ver a melhoria do tempo. Já não chovia e o vento cessara. O Às andava a inspeccionar o exterior e não se detinha a farejar sinais de presença humana recente. Nos últimos tempos a casa parecia-me assustadora, tanto pela sua história como pelas suas dimensões. Havia imensas coisas que o Às não poderia farejar. E tornara-se uma obsessão que exigia todo o tempo de mim. A última descoberta que fiz, numa tímida incursão pelos subterrâneos, no dia vinte e quatro, foi um conjunto de vinte e quatro bíblias manuscritas, em muito bom estado de conservação. Essa descoberta criou-me receios e preocupações adicionais, nomeadamente, quanto a defesa e segurança de um património que suponho de valor inestimável. Mera coincidência ou não, o facto de serem vinte e quatro obriga-me a especulações e conjecturas, a primeira das quais foi ser esse o número de horas que tem o dia e, logo a seguir, o simples facto de as ter descoberto no dia vinte e quatro. Depois, quando decidi voltar a colocá-las no local donde as havia retirado, os sinos do campanário da igreja badalavam as vinte e quatro horas.

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