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sábado, 11 de fevereiro de 2017

A poesia do vento

O mar ergue-se
sobre o horizonte abandonado
na escuridão
pela memória da luz
à porta do castelo de vento
as sombras perguntam
numa língua inconcebível
de que serve escrever
nas velas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Rios tortos


Todas as árvores fixaram o meu olhar
e fizeram-me sentir
deixaram-me a chorar

O brilho do estio
naufraga a ave
de pio fatigado
descarnado
de um cadáver adiado
em pedaços
os meus pensamentos
sem leveza 
para chegar ao céu
acercam-se da terra
que os alimenta
de rios mortos.


Carlos Ricardo Soares 08.02.2017

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Saudade

Minha tristeza
ter vivido
como sonharia
sem poder
vencer
o futuro
desconhecido
do que 
havia
nunca o imaginado 
tempo 
parasse
a recuperar o perdido.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Algum modo ou forma de verdade


Se eu fosse demolidor diria
felizes os que têm prazer de ler o que escrevo
porque são justos e belos
e sãos e santos
e inteligentes e sensatos
e quase perfeitos
mais do que eu
mas escrevo sem recriminações
não como um juiz
nem como um réu
escrevo como um ignorante
que aspira à sabedoria
como um cego
que aspira à visão
como um forte
que não tolera a força
mais do que um fraco
que não se resigna a qualquer sujeição
escrevo como um crente
a esperança e o amor
a racionalidade e a poesia
a expressão de algum modo ou forma
de verdade.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O que nasce sem ser semeado

                      
Para haverdes sonhado
o que esperais
sem ser semeado
o dia 
dessanguentado
pelas mãos 
da noite deâmbula
vos será dado
bálsamo
da melhor oração 
quando houverdes o alecrim
dourado
não será pelo vento 
mutilado.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Palavras que ofereço


O torturador de palavras
O seguidor de palavras
O escravo das palavras
O senhor das palavras
O amante das palavras
O inimigo das palavras
O sem palavras...

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Para ser científico


Sou contra  todas as tentativas de "imposição" de crenças, religiosas, científicas, filosóficas, ideológicas... Mas o que é mais corrente é isso: todos, desde os ateus aos cépticos, não param de tentar "expandir" a sua fé. 
Na ciência é a mesma diligência. E por aí fora. 
Mas eu sou contra isso, porque sou preguiçoso e não me preocupo com a sorte das pessoas após a vida. 

A brincar que o diga, preocupo-me com a sorte dos vivos, tanto daqueles que são vivos de mais como daqueles que são vivos o suficiente para viverem à custa dos menos vivos, ou dos mortos.
A minha preguiça tem a ver com isso, com a preocupação que tanta gente que me não conhece tem por mim. Eles são escritores, poetas, cientistas, papas, políticos, militares, médicos, professores, juízes, polícias, cantores, construtores de automóveis e de aviões, farmacológicas, etc., etc.. 

Habituado, como estou, desde que nasci, a ver tanta gente envolvida em "guerras" e em "pazes" por minha causa, deixei de me preocupar. Afinal, não preciso de me preocupar. 
Mas preocupo-me porque quero paz e liberdade, não quero que me forcem a ser feliz, não quero que sejam infelizes só porque eu não me vou salvar.
Enfim, a minha preguiça não vai tão longe que eu não queira dialogar. 

Então, sempre que me aparece um artista, um cientista, um "iluminado", um político...que me quer salvar, eu agradeço e peço apenas uma coisa em troca de ouvir: que me deixem falar tanto quanto os ouça. 
E marco no relógio. Para ser científico. 
Assim, eu tenho alguma certeza de estar de igual para igual.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Entre nós


Não há nada 
para decifrar
pergunta nenhuma 
para responder
se a felicidade é 
um não problema
se a competência
para escolher 
o melhor
é uma forma desajeitada
de pensar 
para além de nós.