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sexta-feira, 22 de março de 2019

Liberdade e conceito de liberdade

É praticamente inevitável cair em contradições, quando se intenta acoplar realidades e conceitos que se cruzam mas não se misturam. Com efeito, as ideologias e as crenças não podem ser culpadas de serem boas e más ao mesmo tempo.
Se, por um lado, o liberalismo económico e, por outro, o liberalismo político, funcionaram em determinadas condições históricas e deixaram de funcionar noutras, deve-se lamentar a imprevidência humana em não ter corrigido as agulhas, em não ter percebido que o esquema era o mesmo mas os problemas eram outros.
Os modelos político-económicos que levam à prosperidade, paradoxalmente, costumam ser os mesmos que precipitam nas crises, levando os mais ingénuos a perguntar por que razão se abandona um modelo que proporcionou tanto progresso.
As condições alteram-se e isso altera tudo.
Se o planeta Terra não sofresse as agressões e desequilíbrios que está a sofrer tão violentamente pela ação do homem focada numa exploração económica desenfreada e devastadora, o liberalismo continuaria a ser muito bom e todos poderíamos acalentar o sonho americano (em vez do pesadelo).
O pragmatismo de um analfabeto de há cem anos já lhe permitia vaticinar e até antever os limites das realidades e perceber as aberrações a que pode conduzir a liberdade, seja política, seja económica.
A liberdade enquanto condição não se reconhece muito no conceito de liberdade, nem este naquela, porque justamente, ela é algo físico, corpóreo, com consequências adjacentes, com externalidades negativas, é ativa, é um agente, é um sujeito que não quer ser objeto. Por exemplo: o que é a liberdade para uma pessoa destituída de poder? E o que é a liberdade para uma pessoa com poder? É igualmente liberdade?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Crenças, narrativas, valores e poder

A militância dos ateus é tão ostensiva e hostil como anti pedagógica e tem pouco ou nada de científico.
De resto, enquanto os religiosos e os crentes têm narrativas e tábuas de valores, preceitos e doutrinas que enformam as sociedades e as instituições sociais, desde sempre, com um acervo de cultura reconhecidamente edificante da pessoa e do mundo, os ateus só têm para oferecer "a contestação", baseada na falta de fundamentos fácticos das crenças. 
Ora, é sabido que os crentes não têm nem defendem uma ciência de Deus. 
E se as religiões começaram por ser pseudociências de Deus, atualmente nem precisam de Deus para serem religiões, bastando-lhes serem ideologias cujo sistema de valores e doutrinas rivalizam diretamente com qualquer estrutura político-partidária. 
Hoje, as religiões já não são o que eram. A própria pressão científica obrigou à distinção entre crença em Deus e conhecimento de Deus. 
Crença todos podem ter, mas conhecimento nem por isso. 
O problema é quando o crente toma a sua crença como padrão de racionalidade para tudo o mais. Identicamente, o problema do ateu é adotar uma posição irredutível, sem saída para lado nenhum, puramente negacionista, quando a racionalidade aspira a muito mais e exige, largamente, muito mais.
Não me considero ateu nessa acepção. 
Acredito num Deus desconhecido, por mais contraditório e paradoxal que isto possa ser. 
Deus é um mistério paradoxal.
Os ateus não têm como evitá-lo e são eles próprios "um efeito, ou corolário" desse mistério.
Mas acreditam em coisas estranhas e inexplicáveis como o Big bang. Aquilo que explodiu. 
Que é que explodiu? Porquê? E os estados sucessivos da matéria? O que é a matéria?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O que é melhor para o planeta não é melhor para nós?


Continuamos a ouvir discursos numa "argumentação clássica" acerca das desigualdades e da concentração de riqueza, quiçá a favor de uma redistribuição como solução (curiosamente, como solução para manter em movimento acelerado a roda do capitalismo na mira do mítico e sacralizado crescimento económico) dos problemas que ameaçam os capitalistas (e o capitalismo), constatando que as revoluções só acontecem quando a crise chega aos ricos, que já deixaram de o ser ou estão em vias disso.
Mas este tipo de argumentação não traz nada de novo e segue a lógica imperiosa do modelo económico paradigmático.
A estranheza deste tipo de discurso, para não dizer originalidade, é a recorrência dos plutocratas à desculpabilização de si mesmos e à culpabilização do Estado e dos governantes.
É incrível que “tenham” de ser eles próprios a vir dizer, com ênfase, que querem pagar mais impostos, que ganham demasiado dinheiro, mas que o Estado e os governantes nada fazem quanto a isso, ou porque não querem, ou porque andam “distraídos”. 
Duvido que alguma vez na história tivesse ocorrido algo semelhante, que se vai repetindo um pouco por aqui e por ali.
O Estado, os partidos, os governos, parecem reféns da lógica da sua própria dogmática ideológica. 
No futebol também há situações em que o jogador diz que não tem culpa de ganhar tanto, que nem pediu dinheiro, este é que lhe é oferecido.
De qualquer modo, estamos a assistir a uma realidade que está a passar ao lado dos discursos e das reivindicações dos nossos tempos.
Talvez possa soar a heresia dentro do paradigma clássico, mas é um facto que, sem ninguém o ter pretendido, ou por ironia do destino, a concentração de riqueza, com as inerentes desigualdades, sendo um escândalo social e moral, um pouco à semelhança do que acontece com as medidas de austeridade, mas muito mais grave, não deixa de ser uma “bênção” para o planeta, para a necessidade de o salvar.
Vejamos. 
Se redistribuíssem amanhã a riqueza pelos que a não têm, o que é que aconteceria? 
Não digam que todos ficariam melhor e que haveria mais ricos, porque os efeitos seriam devastadores... para o planeta.
Os níveis de consumo, se não forem controlados, talvez sejam a maior ameaça para a humanidade.
Se ao menos fosse possível alcançar menos consumismo de bens materiais, desperdício, destruição, poluição, extinção de recursos, em troca de mais consumo de serviços... 
Mas este nó parece ser um nó górdio.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Valores e escolhas


Haveria considerações e reparos a fazer, por exemplo, à redução dos valores a gostos, ou que os valores estão fora do domínio do conhecimento, mas o que mais me suscita interesse é que a questão dos valores é a questão do Direito, da justiça e da sabedoria, ou mais simplesmente, do critério, da escolha, da ciência das escolhas (como alguém define a economia), da responsabilidade, da liberdade... 
Na realidade, desde o átomo à galáxia, tudo, incluindo o conhecimento (e o conhecimento científico), vale ou não vale, de acordo com algum critério de valor. 
A questão do valor intrínseco é resolvida pelos crentes num Deus que ditou a tábua de valores absolutos. Os não crentes, ou, pelo menos, os que não têm outras referências religiosas, morais ou éticas, sendo eles próprios como que o centro de todas as referências valorativas, o Eu sem o qual nada vale, tenderão a gerir os valores como uma espécie de "mercado" mais ou menos perspetivado para o curto, médio ou longo prazo mas, indissociavelmente, de uma racionalidade utilitarista tendo o "big bang" como pano de fundo e a morte como fim. 
De qualquer modo, quando falamos em valores, quando consideramos, por exemplo, que a ciência é um valor, não estamos a falar de gostos ou preferências, ou vícios, mesmo que haja pessoas viciadas em ciência, como poderá haver pessoas viciadas em virtude. 
Do que estamos a falar é de algo que, no quadro das realidades que contam "propter nos homines et propter nostram salutem", todos têm facilidade em argumentar a favor e ninguém consegue (com sucesso) argumentar contra.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

A literatura é uma arte

A literatura é uma arte, cujo limite é a imaginação e a inteligência e o conhecimento, o engenho, a loucura, de expressar por palavras o humano, o científico e o aberrante, o natural, a natureza, não apenas segundo os cânones científicos da ordem, de que seria, aliás, uma cópia ou reprodução, mas no que essa natureza, supostamente ou apenas por hipótese, "representa" para o escritor, ou este quer representar, porque sim.
Aqui, no escritor, no indivíduo, reside o factor chave, o interesse, o valor, a originalidade, a instauração de uma realidade, não de uma realidade científica da natureza física, mas de uma realidade humanamente significativa, o estado crítico (mais avançado?) da matéria.
A ciência é tão afim da literatura como outra coisa qualquer, como uma pedra ou o sol, ou um rio. A literatura é tão afim da ciência como a vontade ou o desejo de dar expressão a problemas e significados e respostas, ainda que não sejam soluções de nada.
Muitas vezes as soluções vêm com a técnica.
A literatura, não obstante, é a única forma de conhecimento de realidades sociais e humanas que a ciência sabe ou presume existirem, mas que não tem outra forma de conhecer.
A literatura é e será um grande desafio à observação, compreensão e conhecimento das realidades sociais e humanas, tanto mais quanto mais sabemos que, enquanto o conhecimento da natureza é instrumental, o conhecimento das realidades sociais e humanas é incontornável e "existencial".
Se bem que ambas, ciência e literatura, tenham a aptidão para o conhecimento (e o conhecimento não é sempre conhecimento de realidades?) a literatura não se define nem tem como função ou objetivo ou estatuto conhecer seja o que for.
A literatura, enquanto “obra de” arte, não está sujeita a critérios de verdade, de racionalidade, de interesse, de correção, de certo ou errado. Um texto literário não tem de estar certo, nem errado. Nem é bem ou mal escrito, ainda que esteja cheio de erros ortográficos. 
A literatura tem como objetivo ser conhecida, como outra coisa qualquer.
A relação entre a literatura e a ciência parece, assim, fácil de estabelecer.
A ciência, para a literatura é como outra coisa qualquer e vice-versa, mas enquanto a ciência se pauta por critérios de cientificidade e é isso que a caracteriza, a literatura não se caracteriza por obedecer a coisa alguma.

sábado, 15 de dezembro de 2018

A religião é a grande esponja


É interessante a ideia de que a ciência, o método científico, são um sistema de prevenção e de correção de erros e, tanto ou mais do que isso, de exploração do mundo, a partir da imaginação e do conhecimento estabelecido. 
Fica-se com a ilusão de que a ciência é o próprio mundo e não apenas o conhecimento de uma faceta do mundo. E, no entanto, a ciência é apenas um ingrediente muito novo, recém-nascido, nesse mundo.
A ciência deslumbra por ser ela mesma expressão daquilo que, a todo o custo, quer expressar.
Já quanto a existirem “várias actividades humanas além da ciência, por exemplo, a arte, a religião ou a ética", diria que temos um problema clássico de ordenação e classificação inerentes à condição humana de analisar, dividir, separar e juntar de novo com fronteiras, para não esquecer diferenças... Em toda a feitura humana existe algum tipo de preocupação/razão/objetivo/preferência/capricho ...estético.  
Qualquer objeto, desde um sapato à roda de uma carroça de brincar, até os mamarrachos, parecem obedecer a um qualquer gosto ou pretensão estética. A produção de objetos, de obras, de artefactos, não é alheia a algum tipo de racionalidade. 
A valoração envolvida na arte, tantas vezes coincidente com a religião e o sentimento ético do artista, sofre, não raro, com a "desilusão" demolidora introduzida pela ciência. 
Quando as artes são uma forma de reforçar a "crença" ou o gosto que se tem, a ciência pode surgir como desmancha prazeres.
Estando a arte associada ao prazer, muitas vezes resta o prazer de apreciar somente a arte e não o "conteúdo".
Relativamente à religião, ela apresenta-se como algo totalitário, que não dá meças, nem à ciência, nem à arte, nem às outras religiões.
A religião é a grande esponja.
Não concordo que a ciência se deva submeter à ética.
À ética só devem submeter-se os comportamentos, as condutas humanas.
A ciência, como se verifica em manuais da especialidade, é eticamente neutra. Não se diz "deve ser" eticamente neutra. Ser ciência ou não nada tem de ético.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Ainda Esparta e Atenas


Só podemos culpar a revolução técnica e industrial, porque, assim, ninguém é responsável. Mas os políticos são os grandes responsáveis por todo o mal, ou quase, que existe no planeta. E, mesmo assim, continuamos a "adorar" os políticos, por mais indecorosos e medíocres que sejam. Tal e qual como acontecia/acontece nas religiões. O indivíduo não é nada. Mesmo depois da dita afirmação do individualismo. As corjas sim. Se não pertenceres a uma corja, és uma vítima certa e irredimível. Junta-te a uma corja e serás salvo. Nem que seja a corja dos traficantes de chifres de rinocerontes.
Os indivíduos têm a sua responsabilidade comportamental, muito bem definida e sancionada. Mas as estruturas e as organizações e os poderes, que cilindram tudo e renascem sempre sobre as cinzas e o betão, encontrarão modos de serem inocentadas, exequíveis e felizes na lua ou em marte.
E, quando a terra "amada", "te arrenego", for inabitável, talvez venha a ser contemplada por uma estúpida "inteligência matemática" da esperança matemática. Não precisamos de pessoas, mas de matemática e de finanças. As pessoas são uma variável dependente. A montanha de ouro, sim, é, será o refúgio e a esperança. Trabalhem para o ouro. Que cada um de vós seja transformado em ouro, no ouro do outro. Eis o poder e a vanglória em todo o seu esplendor.
Se perderes, envergonha-te e não te queixes. Se venceres, aproveita enquanto dura, e vangloria-te, e humilha, porque esse é o teu prémio e o teu momento.
Quem estiver curioso, revisite Esparta e Atenas. Sem embargo de os nossos políticos ignorarem completamente tudo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O mais revolucionário ateu

“Deus é o silêncio do universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. Ao ler esta frase, atribuída a José Saramago, diria que ele, a pensar assim, não era ateu. 
Ao criar Deus, o homem não pode crer que está a parir e não propriamente a criar, mas está a parir um "filho" do pensamento indomável, uma espécie de alma sem contornos, nem qualidades, que habita esse pensamento e que está tão presa a ele como ele está preso ao corpo.
E nesta génese de Deus o homem foi significando a religião, as religiões, com os mais variados objetivos, práticos e teóricos, tornando-as em caldos de superstições e de contradições e de sistemas políticos e normativos.
Jesus Cristo parece ter tido uma visão muito clara de que as religiões, incluindo a judaica, eram uma espécie de pseudociências de Deus. Quem soubesse a cassete do "jargão" religioso, sentia-se habilitado a falar disso como um sábio.
Infelizmente, Jesus Cristo não foi devidamente compreendido. Ele era o mais revolucionário ateu numa cultura de pseudociências de Deus. Ele foi o mais lúcido, contundente e demolidor adversário e inimigo dessa cultura.
Mas os próprios cristãos, o cristianismo, os poderes políticos, a igreja católica, trataram de o interpretar e de o integrar no velho sistema de pseudociências de Deus, como se ele fosse mais um, embora diferente e melhor.
E, mais grave do que isso, endeusaram Jesus Cristo. Ao endeusá-lo estavam a endeusar a própria Igreja, o que veio a revelar-se catastrófico, e a destruir, desvirtuando-a e deturpando-a, a grande mensagem de Jesus Cristo contra as religiões enquanto pseudociências de Deus.
O que poderia ter sido um imenso movimento de iluminismo antecipado e fulgurante, verdadeiramente libertador, acabou por ser absorvido em sistemas de mais pseudociências de Deus.