Blogs Portugal

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Democracia e boa governação

O estado crítico da matéria é um dos mais avançados estados que a matéria pode atingir.
No momento atual, quando me perguntam em quem vou votar, sinto um nó na garganta, porque penso que está instituída uma cultura de perseguição pelo voto.
Um pouco mais de "propaganda" e essa cultura deixaria cair a máscara e mostraria, com orgulho, o rosto de alguma máfia. Se eu estivesse metido no aparelho político não falaria assim, sob pena de me considerarem louco.
Mas a sacrossanta democracia paira, com a sua auréola, apesar da inaptidão dos partidos, que têm provado não ser dignos dela.
Todos a invocam, mas fazem-no porque transferem as suas incompetências e falta de ideias para governar, para o inequívoco potencial da democracia para proporcionar as condições para o melhor dos governos. Como se a democracia, por si só, resolvesse os problemas, ei-los à cata de votos. Mas isto é enganoso, é querer que as pessoas pensem que votar resolve os problemas. Mas os problemas que a democracia resolve, ou previne, não se confundem com os problemas que os partidos são chamados, mandatados, para resolver. Democracia não é garantia de boa governação. A boa governação não é possível com os partidos que têm governado. Lançaram o país num pântano e não têm ideias de como sair dele. Eles mesmos estão atolados, atados, acusados, descredibilizados, a precisar que os salvem através do voto. O voto, para eles continua a ter um valor inestimável. Para eles, porque, para o cidadão, só tem valor na medida em que tem valor para os partidos. O que era importante, que o voto tivesse valor porque podia resolver problemas, ainda não está ao alcance do voto. A democracia não tem culpa de não termos partidos com as soluções de que tanto precisamos. Não basta ficarmos a saber de que lado está a maioria. Falta concretizar políticas que sejam as melhores.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Por um mundo melhor

Apetece perguntar "quem pode dar-se ao luxo de estudar Humanidades?".
Ninguém melhor do que os estudiosos e versados em Humanidades para explicar porquê, como e quem, ao longo da história, se dedicou às Humanidades.
Mas há cientistas que, inevitavelmente, mergulham nesse imenso passado de estudo e investigação, para nos contarem histórias de escolas e de indivíduos, sábios do seu tempo, que estudavam e investigavam sem outro objectivo que não fosse o de conhecer, o de responder a perguntas, a maior parte das vezes, de meros problemas sem repercussões económicas.
O passado exerce sobre a nossa curiosidade um poder "gravitacional" tão intenso e tão forte que nem precisamos de ser convencidos da sua importância. Se o passado está prenhe de futuros que não aconteceram, também esteve prenhe de futuros que aconteceram e continua prenhe de futuros.
Vivemos uma era de inseminação artificial.
Os lunáticos que viviam obcecados com a observação e a explicação do espaço sideral não conseguiam trocar noites a fio, a localizar estrelas e constelações, por um saco de batatas. Acreditariam eles que estavam no caminho das importantes descobertas científicas que se concretizaram nos últimos séculos da nossa era?
Mas estavam a inseminar e, de algum modo, apostavam nisso, em vez de apostarem noutra coisa.
Comparativamente, os progressos do conhecimento das últimas décadas, ou séculos, foram uma explosão de "nascimentos", após uma inseminação, gestação de milénios.
Para explicar o mundo, um cientista ocupa mais de 2/3 do seu trabalho a descrever o objecto das atenções dos antigos e as dificuldades que encontraram e que não conseguiram resolver.
Não obstante, explicar o mundo, numa perspectiva da evolução da ciência, exige e impõe que se explique a parte não menos importante do mundo, que é o mundo propriamente dito, a humanidade, os fenómenos sociais, os factos sociais, a realidade social.
Em boa hora, Augusto Comte, Karl Marx, Herbert Spencer, Durkheim, Max Weber, entre outros, procuraram aplicar o método científico à investigação e exploração da realidade social.
Os governos de hoje, os parlamentos de hoje, os partidos de hoje, a visão do mundo de hoje, os programas e as agendas políticas, culturais, económicas e científicas, devem tanto ou mais aos revolucionários da análise e do pensamento sociológico dos dois últimos séculos, como a todos os seus predecessores juntos.
E estou convicto de que as Economias de hoje assentam maioritariamente na riqueza gerada pelas Humanidades, Artes, Espectáculo, Desporto, Comunicação, Entretenimento, Jogos, Lazer, Cultura, Saúde, Direito(s)...
Nenhum governo, em países democráticos, escapa ao poder e à pressão crítica de um mundo que quer moldar os governos e não aceita ser moldado.
Tudo, em princípio, está na disponibilidade do homem, excepto o próprio homem, que não é disponível por nada, nem por ninguém.
Esta condição humana é a fonte, diria, de toda a conflitualidade e da esperança num mundo, não apenas mais conhecido, mas melhor.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Ficar no poema

Dói não poder
ficar no poema
como se fica num tempo
inexplicável
como uma paisagem
com que se depara
nos prende
como numa viagem
que ainda não é de regresso
como uma janela se abre
ou como a chave
de que não vemos a porta
ou como a porta
de que não vemos a prisão.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Livros e bibliotecas

Esta sensação de que, embora haja imensos livros e bibliotecas, o mais importante ainda está por ler ou escrever... 
Uma parte da sabedoria estará em resistir à tentação de pretender ler tudo ou escrever tudo. 
Cada vez mais me contento com ler e ouvir, em cada momento, aquilo que faz sentido, dentro do quadro de sentidos que a vida permite.
Sem dúvida, a literatura é o caminho, apesar de ser o caminho mais desamparado e mais solitário. 
Mas é o caminho por onde todos podem seguir, se quiserem, basta saber escrever, nem é preciso saber escrever de certo modo, porque a literatura é aquilo que cada um quiser escrever. 
Este direito e esta liberdade, que eu saiba, só existe na literatura. 
Até os cientistas e os filósofos e os engenheiros e os médicos, e os artistas, em geral, incluindo os políticos, deviam perceber (muitos percebem e sabem muito bem) que a literatura é o reino em que cada um pode ser rei, o paraíso em que cada um pode ser deus, o inferno em que cada um pode ser demónio, o mundo em que cada um pode ser sábio. 
É o maior desafio intelectual, e não só, porque os seus domínios não conhecem limites que não sejam os da criatividade, conhecimento, sabedoria, arte, de cada um.

Carlos Ricardo Soares

domingo, 11 de agosto de 2019

A poesia está para além das estrelas e leva-as

A poesia está para além das estrelas e leva-as para lugares onde elas não podem estar, mas fazem falta. 
A poesia está para aquém das estrelas e trá-las para lugares e momentos em que não seriam poéticas, se não fosse a distância. 
A poesia das estrelas e a ciência das estrelas não se prejudicam, mas se quiseres fazer um poema sobre o sol é inútil reproduzir o que a ciência diz no respectivo manual. 
E, se quiseres explicar o que é o sol, podes precisar de citar/escrever apenas um poema... 
As estrelas e o astro... sol... não são poemas, nem são ciência, mas as estrelas da minha noite e o sol do meu paraíso, ou inferno, podem ser mil poemas...

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Ler e Escrever

Ler, quando não é obrigatório, é uma actividade cheia de implicações e de significados. O que me leva a ler, não qualquer coisa, mas o que leio, pode ter as respostas mais surpreendentes sobre quem eu sou através do que sei, penso, desejo, quero.
Este conhecimento pode (ou não) interessar a mais ninguém, nem à polícia, nem aos vendilhões, nem aos crocodilos, mas pode ser de suma importância para mim. Se eu reflectir sobre isto, só tenho a ganhar (dinheiro não é tudo).

Escrever...Ah, escrever, "falar sem ser interrompido". 
Explorar, sem limites senão os próprios, tudo e mais alguma coisa, ser deus...
O maior desafio intelectual, político, ético, social...
Sentir-se desafiado, mas não como o touro, que "estupidamente" se deixa cegar pela cor, sendo toureado e farpado até à exaustão, para depois ser assassinado na arena com um gesto de desprezo do matador, cobarde, mas que simboliza o gozo humano em sacrificar...
A vida é feita de sacrifícios (ao sagrado). Não há outra possibilidade. Escolher, a todo o momento, é sacrificar. Não se pode ter tudo...
Escrever é sacrificar imensas coisas, imenso tempo, imenso...Escrever é sacrificar para não ser sacrificado e, só por isso, vale todo o sacrifício.

Não no sentido de "sacrifica-te e ficas desonerado", como quando vais ao psiquiatra, ou à farmácia, ou à igreja, ou à caixa das esmolas... e largas o dinheiro ao santo em que acreditas...Ou fazes aquela viagem obrigatória... ao santuário...Como se o preço te desonerasse de tudo o mais, como se tudo fosse uma questão de preço (sacrifício) a pagar...

Mas no sentido de teres de escolher (gastar o dinheiro/tempo que tens) entre uma coisa e outra, quando ambas são importantes para ti, mas só podes comprar/ter uma delas. E teres de escolher sem teres qualquer certeza ou garantia de essa ser a melhor.

domingo, 21 de julho de 2019

Artes e Ciências


As diversas disciplinas têm uma linguagem que pode distingui-las, até certo ponto, mas todas têm em comum o serem sistemas de observação, análise, investigação, estudo e reflexão sobre determinados "objectos de estudo", com objetivos de "conhecimento".
A linguagem de cada uma delas, normalmente, já constitui um repositório decantado de conceitos e de noções que corporizam alguma forma de conhecimento. 
Assim, por exemplo, quando estudamos literatura, ou teoria da literatura, ou história da literatura, filosofia ou história da filosofia, estudamos conhecimentos corporizados em torno de obras literárias, de obras filosóficas, ou de problemas filosóficos, mas grande parte desses conhecimentos são teóricos, são teorias sobre...as obras, as ideias, os processos, os conteúdos e a forma, a contextualização, os significados, os impactos.
Outra coisa são as obras objeto de estudo. 
Ao falar da literatura, da filosofia, da história, das artes, posso fazê-lo com o mesmo rigor e exatidão com que falo do peso da lua, do volume da água do mar, da velocidade da luz, etc..
Embora este tipo de conhecimento não nos ensine a pesar a lua, nem quanta água há no mar, nem nos prepare para usar a eletricidade como força motriz, ou a perceber a velocidade da luz, ou por que razão a velocidade de um corpo não pode ultrapassar a velocidade da luz...não deixa de ser a linguagem da(s) ciência(s).
O cientista, supondo que mantém sempre a mesma preocupação e responsabilidade científica, não fala com mais rigor científico, quando fala sobre a teoria da relatividade geral de Einstein, do que quando fala sobre a autoria e o conteúdo dos Lusíadas, ou sobre a Lógica de Aristóteles, ou sobre a batalha de S. Mamede.
O rigor ou a falta de rigor não tem a ver com o rigor e o mérito científico das disciplinas propriamente ditas, mas com o rigor e o mérito científico de quem fala delas.
Neste plano, poder-se-ia dizer que todas as ciências são exactas, senão não seriam ciências, embora possamos talvez distinguir entre juízos científicos, sobre realidades (as realidades não são exactas) e "juízos" conclusões de lógica pura e abstracta, cuja referência à realidade é de ordem matemática.
A divisão entre ciências não pode ter o significado de umas serem mais ciências do que outras.
Se um cientista da área da Física acha que não deve ouvir um cientista da área da botânica, porque este não lhe merece respeito científico ou um cientista da área da história despreza um especialista de Direito Fiscal, por este não ser das ciências exactas, aí já estamos a falar de uma divisão de ordem diferente, que tem a ver com estatutos sócio-económicos-académicos das várias ciências.
De qualquer modo, as diferenças entre um cientista e um matemático e um artista, um romancista, um pintor, um poeta, no que respeita aos respetivos objectos, problemas, de trabalho, ou "estudo", elaboração, incluindo as respectivas linguagens, objectivos(resultados) e finalidades, são muitas e são notáveis.
Aqui, talvez seja comum encontrar pessoas que se ignoram umas às outras, simplesmente, porque não estão interessadas no que os outros fazem, ou porque não conseguem dedicar-se a muitas coisas ao mesmo tempo, ou porque não sabem, etc..

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Macacadas

Olhando sem deslumbramento, nem comodismo, nem paixão, para o mundo que nos rodeia e invade, sem dar tréguas, vejo macacos a fazerem macacadas, com o ar mais sério deste mundo, de colares no pescoço e penteados fabulosos emoldurando um rosto, tantas vezes velho e sisudo, para não dizer carrancudo, que não abdica da sua proeminência sobre os outros macacos, ainda que se queixem de tudo.
Não tratemos dos humanos como se fossem macacos e nós não.

Carlos Ricardo Soares