Como é belo saber ver
Do lugar onde cheguei
Do luar que acreditei
Do deitar tudo a perder
Do não sei pra onde vou
Como é belo compreender
Que o tempo nunca parou
Nas rosas que vi nascer
No vaso do nosso amor
Como é belo saber ver
Que a vida lança raízes
No solo estéril da dor
Como é belo ouvir dizer
As palavras que me dizes.
domingo, 20 de setembro de 2009
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
O meu sonho
Ao olhar para a agenda pus-me a reflectir sobre as tarefas marcadas para este dia e perdi-me em pensamentos sobre as minhas origens e como tenho sido, desde sempre, um homem sem sonhos (se é que eu, por não ter sonhos, compreendo o que isso é).
A primeira coisa que me ocorreu ao ver que tinha de apresentar-me no posto da GNR às 14:30h, foi que, aos oitenta anos, eu podia ser preso por crimes que nunca cometi. De repente, este pensamento tomou-me completamente ao ponto de eu esquecer que a minha morte que o meu médico tinha agendada devia preocupar-me mais. Nem sei se houve algum motivo inconsciente para que deixasse de anotar na agenda o facto previsto (com data marcada) da minha morte. Se calhar foi porque numa agenda só devem constar coisas da vida. É capaz de haver quem consiga explicar lindamente estas curiosidades.
E, sem me aperceber, acabei por embrenhar-me em profundas meditações sobre os meus pais e os meus primeiros tempos de vida. Éramos uma família rica. Diria até, podre de rica. Faltava-nos o que não tínhamos, e que era imenso, como a toda a gente, mas tínhamos muitas coisas que faltavam à esmagadora maioria da população. Ouro tínhamos muito. Sonhos, que eu saiba, nenhuns. Ignoro se alguma vez estes nos fizeram falta, aos meus pais e a mim. Nem quando ouvia continuamente na rádio uma cançonetista ligeira repetir em notas alegres que não tinha ouro mas tinha tudo porque tinha sonhos. Hoje, interrogo-me sem saber a razão de o meu cavalo lusitano, que eu montava com cinco anos de idade, se chamar Sonho. Só os meus amigos percebiam que era de um cavalo que se tratava quando eu dizia que cavalgava o Sonho.
Um dia, referindo-se a um homem andrajoso que percorria as freguesias a pedir esmolas e que eu admirava por, na sua simplicidade, dizer poesias em tom profético e magistral, Valquíria, a mulher mais velha da quinta, que já servira no tempo dos meus avós, segredou-me, convicta da minha cumplicidade, que aquele homem era muito rico porque tinha um sonho.
Eu sempre quis ter um sonho, porque parecia evidente que isso era o melhor que se pode ter. E dizia-o sem rebuço. Até nas minhas orações, sobretudo quando a vida corria mal, eu pedia a Deus que me desse um sonho. À medida que os anos passavam e que eu tinha cada vez mais tudo o que queria, mais intensa e perplexa era a minha necessidade, o meu desejo, de ter aquilo que todos tinham sem dificuldade e que eu nem com rezas conseguia.
No meu décimo aniversário, quando o meu avô perguntou o que eu queria de prenda, não pensei no regresso da minha querida mãe, que tinha abalado há menos de um ano e nos deixara inconsolavelmente inconformados e infelizes. Disse-lhe simplesmente que queria ter um sonho.
Ele não mostrou surpresa. Sorriu com um sorriso de compreensão que me deixou confortado e, por fim, disse «também vivi até hoje com esse sonho». O meu avô tinha setenta anos. Era um poeta que nunca vi a escrever ou a ler versos que tivesse escrito.
Não tenho a certeza de ter compreendido o alcance da resposta que o avô me deu. Uns anos mais tarde, uma miúda cujo nome não esqueci mas não vou revelar e que eu achava a única rapariga digna de ser considerada bela, cruzou-se comigo no escuro do corredor de acesso à biblioteca do liceu, encostou-me um dedo ao umbigo e de olhos fulminantes atirou: «todas as raparigas sonham com um rapaz como tu!».
Há coisas que têm mais ou menos influência e repercussões na vida das pessoas. A minha vida foi definitivamente marcada por este episódio. E ainda agora me surpreendo a tirar ilações desse acontecimento: ela não disse que eu era o sonho de todas as raparigas, nem que eu era o sonho dela.
A tosse cavernosa do reitor, que saiu do seu gabinete a escassos passos de nós, anulou a minha tentativa de fazer algo mais que ficar calado. E a única rapariga digna de ser considerada bela foi embora sem saber o que eu lhe teria dito.
Desse episódio a imagem que guardo com mais nitidez é a do reitor envolto numa nuvem de fumo de tabaco a expelir relâmpagos de um cigarro seguidos do trovejar assustador da última vez que tossiu.
Não estive nas cerimónias fúnebres.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Esta noite não dormi
Esta noite não dormi
Bateste à porta
E o sono fugiu
Abri a fechadura dourada
Sem espreitar pelo monóculo
E os teus olhos originais
Como sempre
Foram
Lanternas na minha escuridão
Abri os braços antes de qualquer palavra
E contra o peito
Apertei uma mulher
Que largou tudo
Para me oferecer um sonho
Ainda virgem
Deixei de ter os pés na terra
Vénus estava na sala
E eu olhava-a
Das minhas vidas passadas
Esta noite não dormi a beijar-te
E a lançar a tua roupa
Para a via láctea
Como se soltasse raízes
Na cama.
Bateste à porta
E o sono fugiu
Abri a fechadura dourada
Sem espreitar pelo monóculo
E os teus olhos originais
Como sempre
Foram
Lanternas na minha escuridão
Abri os braços antes de qualquer palavra
E contra o peito
Apertei uma mulher
Que largou tudo
Para me oferecer um sonho
Ainda virgem
Deixei de ter os pés na terra
Vénus estava na sala
E eu olhava-a
Das minhas vidas passadas
Esta noite não dormi a beijar-te
E a lançar a tua roupa
Para a via láctea
Como se soltasse raízes
Na cama.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
TU
Vais ao rio por onde escoam
Inexoráveis erosões do olhar
As melancolias que têm beleza
Para nos fazerem felizes
Sobem ao céu
E delas nos lembramos sob as estrelas
Enquanto tecemos redes
De luar de caminhos
De saudade
Às horas fugitivas
Alcançamos a verdade
Que era do mar
Em ventos transformados
Desejos e pensamentos
Libertos no meu coração
Ciladas
De tantos hinos impossíveis
Dos milagres em mim
Como o tempo das flores
Que nos colhem
Nos ilumina.
Inexoráveis erosões do olhar
As melancolias que têm beleza
Para nos fazerem felizes
Sobem ao céu
E delas nos lembramos sob as estrelas
Enquanto tecemos redes
De luar de caminhos
De saudade
Às horas fugitivas
Alcançamos a verdade
Que era do mar
Em ventos transformados
Desejos e pensamentos
Libertos no meu coração
Ciladas
De tantos hinos impossíveis
Dos milagres em mim
Como o tempo das flores
Que nos colhem
Nos ilumina.
sábado, 5 de setembro de 2009
O Poeta do Calvário
Há imensas expressões e palavras que cairam tão depressa em desuso que, hoje, só alguém com mais de cinquenta anos que tenha nascido e crescido num meio popular (analfabeto) será capaz de lembrar algumas delas. Lamento muito o facto de se ter substituído em poucas décadas registos linguísticos populares com centenas de anos. Nesse aspecto a escolarização varreu (e para muita gente não suficientemente depressa) toda uma "bio"diversidade que os escritores não tiveram tempo de perceber que era preciso preservar, pelo menos através da escrita. E não estou a pensar apenas em "botar as barbas de molho".
Na minha primeira infância havia personagens que eram estranhamente respeitadas na sua "loucura". Uma delas transfigurava-se no momento em que se punha a dizer versos à porta da taberna. Era um poeta. Dizia que não sabia donde lhe vinham aqueles versos. Falava à maneira de um ignorante para ignorantes. Muitas coisas que ele dizia e fazia "não eram dele" e, de facto, ele nunca tinha estudado e não sabia ler nem escrever. Não conhecia confortos e andava sempre sozinho. Nada tinha e nada ambicionava e com ninguém falava. Quando falava era para um público, fora disso era capaz de passar horas sentado nos degraus da igreja do Calvário, ao sol se fosse inverno e à sombra se fosse verão.
Esse singular e misterioso ancião que nunca perguntava nada, nem respondia a ninguém faz-me pensar que talvez ele fosse um génio que era poeta sem ser "à maneira de" erudito.
Ou sou eu, agora, que estou a ser louco...
Na minha primeira infância havia personagens que eram estranhamente respeitadas na sua "loucura". Uma delas transfigurava-se no momento em que se punha a dizer versos à porta da taberna. Era um poeta. Dizia que não sabia donde lhe vinham aqueles versos. Falava à maneira de um ignorante para ignorantes. Muitas coisas que ele dizia e fazia "não eram dele" e, de facto, ele nunca tinha estudado e não sabia ler nem escrever. Não conhecia confortos e andava sempre sozinho. Nada tinha e nada ambicionava e com ninguém falava. Quando falava era para um público, fora disso era capaz de passar horas sentado nos degraus da igreja do Calvário, ao sol se fosse inverno e à sombra se fosse verão.
Esse singular e misterioso ancião que nunca perguntava nada, nem respondia a ninguém faz-me pensar que talvez ele fosse um génio que era poeta sem ser "à maneira de" erudito.
Ou sou eu, agora, que estou a ser louco...
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
O perdão
O mundo quer o tempo
cento e vinte e oito hexavós
reconhecer fragmentos
que dizer
que ter presente
sempre para limite
restar um momento
alívio de respirar
gastar tempo
tarde é nunca acontece
o que consiste
em sermos espectáculo de ninguém
inventar a parte não menor de ontem
reflexos à escala de amanhã
a vontade intérprete do fazer tudo
faz parte do tempo da mente
acolhe franca mente
o meu pensar possível
que feliz
que elo liga ao que houver
de remoto
uns olhos vêem desde algum primórdio
chegar a perspectiva do pecado
alguma vez
a existência de perdão.
cento e vinte e oito hexavós
reconhecer fragmentos
que dizer
que ter presente
sempre para limite
restar um momento
alívio de respirar
gastar tempo
tarde é nunca acontece
o que consiste
em sermos espectáculo de ninguém
inventar a parte não menor de ontem
reflexos à escala de amanhã
a vontade intérprete do fazer tudo
faz parte do tempo da mente
acolhe franca mente
o meu pensar possível
que feliz
que elo liga ao que houver
de remoto
uns olhos vêem desde algum primórdio
chegar a perspectiva do pecado
alguma vez
a existência de perdão.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
As línguas do amor
Por favor
Fala-me todas as línguas
Do amor
Que há-de haver alguma
Que eu compreenda
Se me falares só uma
Talvez a não entenda
Se houver uma escola
De línguas do amor
Ou de amor
Ou ao menos de uma das línguas
Do amor
Eu quero aprender
O amor fala todas as línguas
Que nós desconhecemos.
Fala-me todas as línguas
Do amor
Que há-de haver alguma
Que eu compreenda
Se me falares só uma
Talvez a não entenda
Se houver uma escola
De línguas do amor
Ou de amor
Ou ao menos de uma das línguas
Do amor
Eu quero aprender
O amor fala todas as línguas
Que nós desconhecemos.
sábado, 22 de agosto de 2009
Fernando Pessoa não mentia
Sem entrar em detalhes, direi, em minha modesta opinião, que toda a gente escreve com sentimento, mesmo a lista de compras. Mais ou menos sentimento, pouco importa e duvido que alguém saiba distinguir o muito do pouco sentimento. É que sentir e pensar são indissociáveis ao ponto de não haver fronteira entre um e outro. Somos capazes de pensar o que sentimos e de sentir o que pensamos.
Em certo sentido poder-se-á dizer que quem mais/menos diz que sente é quem mais mente.
Fernando Pessoa não mentia.
Em certo sentido poder-se-á dizer que quem mais/menos diz que sente é quem mais mente.
Fernando Pessoa não mentia.
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