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sábado, 3 de março de 2018

O poder da literatura

A literatura (da poesia ao ensaio, passando pelo romance e pela profecia, adivinhação, ladainha, canção, fado, escárnio, maldizer, drama de faca e alguidar, relatos, de viagens, de todo o tipo de crónicas e de policiais, até às orações e sermões e elogios...) permite uma expressão verbal, praticamente sem limites, de todo o tipo de representação ou signo, sem condicionamentos de lógica, sentido, significado, noção, conceito, moral, licitude, virtude, respeito, dever, etc.
À literatura nada é vedado, nem a invenção, nem a mentira, nem a verdade, sobretudo aquela verdade em que tanto se vive, que é uma verdade feita de falsidades, hipocrisias e mentiras. Na minha biblioteca de filosofia e de ciência e mesmo de uma grande parte da literatura (bem comportada) é tudo tão convencional, tão conceitual, tão voltado para o objeto que pouca diferença faz ler um livro escrito há mil anos ou um acabado de sair. Dá a impressão de que a vida e a história, as traições, as trapaças, o assédio, o incesto, as vigarices, os roubos, as violações, as escravaturas, as guerras ocultas, os ódios inconfessáveis, os fantasmas invencíveis que atormentam até os mais esclarecidos filósofos e cientistas, as verdadeiras dores e misérias humanas, da guerra e da discriminação que tantas pessoas sofrem...dá a impressão de que nada disso acontece. Tudo é transformado em conceito abstrato, ou seja, em nada mais do que ideia.
A literatura pode, e muitas vezes tem-no conseguido, "falar" da vida como ela é, sem estar subjugada sequer a qualquer dever de "falar" e, menos ainda, de "falar" como deve ser.
Tudo é susceptível de ser utilizado, tocado, tratado ou maltratado, incorporado, atacado, "destruído", pela literatura, que pode ser usada como arma impiedosamente letal de religiões e de costumes e, quantas vezes, de pessoas já mortas, ressuscitando-as em memórias para as poder matar as vezes que for preciso... ou amar sem limites.
Na minha biblioteca de filosofia e de ciências e de literatura, só alguns livros de literatura me falam da verdadeira vida e do pensamento e das ideias e dos fantasmas, dos medos e das tormentas e das injustiças irremediáveis, da dor que impede os humanos de serem felizes e da grandeza, da magnanimidade daqueles que, apesar de tudo, garantem, com o seu trabalho e a sua virtude e o seu talento, a vitória da vida sobre a morte e do bem sobre o mal. 
     Ela denuncia as podridões dos malditos e os heroísmos dos justos, ela nos mostra o verdadeiro rosto por trás das máscaras, despertando-nos de ingenuidades perigosas e inocências fatais, chamando as coisas pelos nomes...porque as palavras são, quase sempre, a única arma de que dispomos no conflito interminável com os demónios e os deuses e também é com palavras que podemos construir as nossas asas e as nossas praças fortes, os nossos tribunais e os nossos paraísos de procura e encontro de sentido para os problemas...
A literatura mostra, patenteia, ostenta, incorpora pelas palavras tudo o que quiser e puder a imaginação do escritor. Muitas vezes até faz um aproveitamento desmesurado da importância de certos assuntos, acontecimentos, realizações, artes, monumentalidades, indo buscar brilho ao próprio objeto. 
      Muitos livros de notáveis escritores são constituídos em 90% de "materiais" artísticos, ou potencialmente estéticos, alheios, seja o convento de Mafra, sejam as personagens bíblicas...
Um homem com a sua ciência e a sua filosofia pode não precisar de uma religião, mas precisa de literatura para sair do deserto.
            Carlos Ricardo Soares 


sábado, 27 de janeiro de 2018

Solo


Sento-me na superfície do planeta
na capa externa 
das rochas
a contemplar
o nascimento do solo
complexo e dinâmico
mineral e orgânico
vegetal e animal
orgástico
por onde o ar e a água circulam
recebendo e redistribuindo
a energia solar
que arde na lenhite
na hulha e na antracite.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

É preciso entoar


Preciso escrever que
Nem era preciso escrever
Porque nada existe
Que não tenha voz 
Pelo menos
Que não diz
Que não seja gesto
Pelo menos
Que não seja nariz
Pelo menos
Que não seja sombra 
Pelo menos
Que não seja raiz que
Dizemos
Ou simplesmente
Sabemos que 
Não sabemos
Ou apenas ignoramos
A origem
Que não seja força
Pelo menos
Que não seja morte
Entoação
Nem que seja 
Ao vento
Caravela de letras
Entoada
Ao mar da sorte
Uma canção
Ao destino
Pode ser
Um cântico
Pode erguer 
O peso de partir
À leveza de chegar.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Alma de sem abrigo


Este silêncio
se ouve
na asa partida
do vento
a arrancar penas
à vida
pelas ruas da amargura
alma sem guarida
nem pelos sagrados sinais
o eterno
sela as portas do inferno
e abre as celestiais.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Templo de sombras


Busco as sombras porque a luz fere
para ver mas nem tanto
e para não morrer
por enquanto
descubro com prazer
alguns horizontes de toupeira
nesta galeria labiríntica
da maçã.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Assim fala o vulcão


No dia em que as moscas e as ervas
e os grãos de pó
bailavam ao sol da tarde
opinando e dando ordens entre si
como grandes senhores de tempos remotos
que sem esforço nem talento
gerem a seu bel prazer
o que julgam ser
mas não é
sentiu-se um abalo
quando o vulcão se queixou
tenho de me sacrificar
porque já não aguento mais
para vós é fácil
flores passarinhos gasosas améns
mas eu não vou em procissões
para chegar onde está o verme
não sabem nem imaginam
a força e o esforço
que tenho de fazer
a rosa e o jasmim tão delicados
quase nem acordam
e ao vento dizem sempre sim
mas eu não tenho aliados
estão todos aliados
contra mim
mas agora que pus a cabeça de fora
vão ter de me ouvir
até ao fim
desprezo-vos
e
ao deus que explorais
vis animais.

domingo, 20 de agosto de 2017

O Poeta e a Pena


O poeta não se acobarda
por mais que lhe arda
hoje
diante dos incendiários
não foge
nem esconde
da guerra
da verdade
o amor à terra
o poeta tem numa mão
a espada
com que responde
e na outra a pena.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

As verdades e a verdade


Sabemos quais são as verdades que contam
as dores e as alegrias de que é feita a vida
e é por elas que nos sujeitamos na esperança
sempre traída
de nos deixarem viver de verdade
de não precisarem de nós
para levarem de vencida
a maldade
sabemos que não nos deixam em liberdade
nem depois de aprendermos a obedecer
convenientemente
porque há um preço para a vida
e para as verdades da vida que contam
as dores e as alegrias de que é feita a vida
e é por elas que nos sujeitamos na esperança
sempre traída
que nos desvanece o sonho
as verdades não chegam para viver de verdade
não nos roubem a verdade
enquanto nos iludem com verdades.