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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

(Des)humanidade


O tema das universidades europeias é de suma importância, pelo que vi tratado, com inusitada competência, no livro «Os intelectuais na Idade Média», de Jacques Le Goff.
De cada vez que recuo no tempo para tentar encontrar o tempo presente verifico, porém, que as grandes questões filosóficas e religiosas continuam em aberto, como no paleolítico, neolítico, etc..
Vivemos aprisionados dentro de um universo que vamos conhecendo cada vez mais. 

Cada vez mais capazes de descrever e de explicar como funciona. 
Mas o nosso problema humano é outro. 
Que é que substitui ou satisfaz a nossa vontade? 
Pudesse ter todas as verdades no bolso da camisa. Fosse Deus.
Como é que isso iria resolver aquele problema da vontade?
Ou, dito de outra forma mais prosaica, um voto serve para alguma coisa?
E se forem todos os votos?
Vivemos numa sociedade que, embora evoluída cientificamente, se mantém arcaica e que não aprendeu, nem aprende com os erros e as dores dos outros, porque destituída de passado, ou, pelo menos, destituída da consciência desse passado, completamente descredibilizada na sua competência para resolver problemas sociais de sempre, mais empenhada no estudo da física atómica e dos astros do que no estudo dos problemas sociais e político-económicos, mais apodítica sobre as rochas e os meteoros do que informativa sobre a justiça e as desigualdades sociais, com mais conhecimentos sobre as galáxias do que sobre os factos sociais, mais segura das característcas físicas da matéria do que assertiva quanto às qualidades dos organismos vivos, a resvalar em movimento acelerado para mais uma catástrofe provocada por uma coisa irracional chamada (des)humanidade.
Faz falta um Newton e um Einstein e um Schrodinger das Ciências Humanas e Económico-Sociais.
Mas continua a ser muito mais difícil do que pareceria no dealbar das revoluções...

domingo, 23 de setembro de 2018

Estado crítico da matéria


António Gedeão é um dos meus poetas preferidos. 
Para o homem de ciência, não me admira que a poesia tenha sido a descoberta do estado crítico da matéria. 
O que me admira é a forma como ele tratou da matéria.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Novas formas de ganhar

         Não me colocaria do lado dos que se recusam a reconhecer que o planeta terra está a ser destruído pelo homem, de múltiplas formas irreversíveis, sem retorno, incluindo alterações climáticas desastrosas.
         Não é por, hipoteticamente, alguma alteração derivar de fenómenos extraterrestres, que me colocaria, não apenas contra as evidências, mas também do lado das improbabilidades, ignorando a enorme realidade da devastação dos habitats.
        Ou seja, não me colocaria do lado de uma qualquer teoria que torturasse, sacrificasse e maltratasse irreversível e definitivamente os factos, até e principalmente o facto de estarmos a ser destruídos, pela acção do homem e não só.
       Vivemos um tempo de alertas e de alarmes mais do que justificados. 
       As soluções baseadas e preconizadas em princípios e práticas antigas, instituídas pela força dos usos e dos paradigmas milenares de organização jurídico-política e económica são hoje um perigo, impensável nos alvores da industrialização e da exploração económica liberal e individual, dos recursos do planeta.
      Muito está a mudar e muito rapidamente, de tal modo que os modelos conhecidos de resposta política, jurídica e económico-social, nomeadamente internacionais, são incapazes de satisfazer as exigências de racionalidade e de fundamento que se colocam.
      Estou a pensar, por exemplo, no problema dos migrantes, dos refugiados...E no problema da apropriação e exploração dos recursos naturais das diversas regiões do nosso planeta.
      Os Estados e os povos não vão poder continuar a fingir que as coisas podem ser resolvidas e solucionadas com base nos princípios clássicos e antiquíssimos, mas muito primitivos e tacanhos, da soberania territorial estadual.
      O princípio de que o planeta é igualmente de todos, de que ninguém tem mais direitos, hereditários ou outros, nem títulos especiais e privilegiados de vocação ao património da humanidade, científico, cultural, material, vai ter de ser equacionado se se pretender responder a algumas das questões mais dramáticas e prementes do nosso tempo.
      Muitos se manifestam pelo que temem perder, mas vai ser preciso aprender novas formas de ganhar.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O inimaginável


Ninguém conseguiria imaginar uma rua como a minha, nem eu. 
O inimaginável exerce sobre mim uma atracção quase irresistível, mas tem, à partida, uma garantia de insucesso que desencoraja até o mais louco e imprudente dos aventureiros. 
Nada mais desafiante, portanto.
O pior de tudo é que a rua não existe. 
Podemos procurá-la por todo o lado. 
Tão pouco existe na minha cabeça. 
Tão pouco existe nas palavras que escrever sobre ela. 
Mas é uma rua muito interessante e muito antiga.
O que não existe pode ser muito interessante, muito mais interessante do que aquilo que existe. 
A maior parte do que não existe, se existisse, perderia o interesse. 
Ou talvez não.
Não é uma rua direita e sabe-se lá as razões e os sonhos que moldaram as pedras de cada esquina e as fechaduras de cada porta, quantos cavalos, com o barulho dos suas ferraduras na calçada, foram o despertador impiedoso de gente que, de outro modo, nunca teria acordado...
O que é certo é que não há ninguém que se lembre dessa rua movimentada, nem eu. 
Não há vestígios dela.
E isto é muito triste.
Nessa rua ninguém passa, nem passo eu. 
É uma rua habitada pelos fantasmas dos que viveram na esperança de que alguém os inventasse.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

No horizonte das possibilidades


Atrevo-me a dizer que, sem paixão, tudo permanece opaco ao pensamento, incluindo o pensamento e o que acontece é dentro das fronteiras do senso comum.
O filósofo coloca o problema da filosofia como uma questão de amar ou não o conhecimento, o saber, a sabedoria, sem fronteiras. E o amor é reconhecido como uma vinculação à verdade, talvez a única vinculação radical.
Quando as motivações são outras, a filosofia não funciona porque, na verdade, deixa de existir e pode ser uma emulação, uma sofística, uma técnica de manipulação de palavras.
A escola, ao aproximar o aluno do horizonte das possibilidades de aprendizagem e das dificuldades de atingir determinados desempenhos, já cumpre um importante papel.
As aprendizagens são como sementes e as que brotam mais cedo ou mais facilmente nem sempre são as mais consistentes, ou produtivas.
Às vezes a importância do banquete não está no que se come, mas no que se deixou de comer.
O que fica na mesa, e não o que vai para o estômago, pode ser o que fica na memória.

domingo, 5 de agosto de 2018

Violência dos ofensores e violência dos ofendidos


Vou ser breve e cingir-me a poucas considerações sobre um tema tão vasto e complexo.
Ao focar apenas ofensas derivadas da liberdade de expressão/pensamento, omite-se e não se aproveita para a análise, a ofensa, como denominador comum relativamente a todos os tipos de crime, públicos ou particulares.
A ofensa, na óptica do ofensor/agressor e a ofensa, na óptica do ofendido, merecem uma análise "per si". 
Se não houver ofendido, não há ofensa? Ou, por outra, se houver ofendido, há ofensa? Todo e qualquer comportamento de um indivíduo "contra" uma pedra, não é censurável de todo? Qual é o escopo da censura, o objetivo, a teleologia? O comportamento do indivíduo, a adequação da sua conduta social ou os eventuais resultados, efeitos ou consequências dessa conduta?
Mesmo que alguém admitisse, sem se queixar e sem se sentir ofendido, que o maltratassem, injuriassem, difamassem, escravizassem, o busílis da questão jurídica e ético-moral, não estaria apenas na disponibilidade dessa pessoa, como parece óbvio.
A questão das bandeiras é ilustrativa de que o problema talvez não existisse se as "ofensas" à minha bandeira fossem feitas por gente que, igualmente, "ofendia" as suas bandeiras e aceitava/concordava que outros o fizessem.
Vou constatando é que os que mais ofendem as bandeiras dos outros também são os que mais se ofendem com ataques às suas. 
Em qualquer caso, o problema das ofensas é muito mais do que um problema de sentir-se ou ser ofendido.
É sobretudo um problema de limites à liberdade.
Passa-se o mesmo com os atentados ao pudor.
Alguém que se julgue com o direito de c.... na rua, à vista, ou ir nu a empurrar um carrinho, ou f.... à canzana numa esplanada, até pode ter quem goste e quem aplauda, longe de se sentir ofendido.
Até se poderia pensar em propor às pessoas que escolhessem entre vários espaços possíveis, como se faz para fumadores e não fumadores, etc..
Agora, o direito de a pessoa se sentir ofendida não existe. 
O que há é o direito de não ser ofendido.
Não me ofende quem pensa mal de mim. 
Ofende-me quem o expressa, não no mero exercício de uma liberdade de expressão, por mero gozo ou felicidade pessoal, mas à minha custa, à custa da minha reputação, imagem, bom nome, felicidade, paz, com o intuito de me prejudicar, ainda que só me prejudique no foro íntimo.
Não faz grande sentido que sejamos contemporizadores com a violência dos ofensores como se esta tivesse o mesmo significado e valor/justificação da violência dos ofendidos.