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domingo, 28 de outubro de 2018

O povo

O povo tem um sentido prático que chega a ser espantoso.
O povo só aprecia tragédias na tela da televisão ou do cinema.
E é capaz de trocar tudo o que tem, incluindo a dignidade, por um pouco de paz e de misericórdia.
Para por um povo em armas é preciso que o fim do mundo já tenha acontecido nos arredores,
ou que, num arrebatamento de soberba, sem medo, acredite numa vitória expiatória. 

E, ainda assim, alguém tem que lhe dar as armas e a ordem para se defender, ou atacar.

Carlos Ricardo Soares



As coisas não têm de ser


As coisas não têm de ser 
nem têm de ser como são
nem são
entre a vida e a morte
não há
aventuranças
nem há entre a vida e a morte.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A questão de Deus


               Como tratar da questão de Deus sem nos envolvermos numa questão da própria questão?
               O significado da palavra chega a ser profundamente contraditório. Desde significar um objeto inerte, uma imagem, um desenho... até significar um animal, um fenómeno natural ou simplesmente fantasiado... ou um conjunto de atributos políticos, morais, estéticos, espirituais...tudo deste nosso reino que muitos acreditam poder descrever outros, completamente diferentes, que possam existir...indo do simbólico até ao conceitual, do objeto de adoração, ou simplesmente de indagação, indiferença ou rejeição, a princípio legitimador de prescrição e de ação e, até, de critério de sanção, Deus é um problema do homem que este resolve do modo que pode, lhe parece melhor, ou dá mais jeito.
             Interrogar "o que é Deus?" é diferente de interrogar "que significa a palavra Deus?" e de interrogar "quem é Deus?" e de interrogar "Deus existe?".
            Debalde se procurará uma resposta objetivamente definida para qualquer dessas interrogações.
           O próprio significado da palavra Deus, que pareceria mais suscetível de ser conseguido objetivamente, depara com subjetividades intransponíveis, talvez por se tratar de algo que, apesar de ninguém saber o que é, tem tantas definições quantas as pessoas que o definem, ou mais.
           Quanto a isso, eu designaria Deus como um significante sem significado, ou, à procura de significado, ou como uma personagem à procura de um actor. E o universo, uma obra à procura de um autor.
           Deus é uma realidade cultural e, como tal, tão histórico como a bíblia, ou os faraós. Enquanto que a bíblia e os faraós são objetos reais e culturais, Deus deixou de ser objeto real (animal, etc....), deixou de ser ídolo e é uma espécie de abstração sobre si mesma, à procura de concretização de que essa mesma abstração está fecundada.
           Para o filósofo, ou para o cientista, Deus é um conceito muito restrito, reduzido a hipótese teórica de Inteligência criadora do universo.
           No entanto, essa hipótese dá azo ao desenvolvimento de teorias que a discussão tradicional entre ateus e crentes, fiéis ou não, tem impedido de acontecer.
           É neste plano que me parece que os ateus também laboram em crenças e, tentar combater crenças com outras crenças é tão impróprio e ineficaz como combater uma religião com outra, embora isto seja uma fatalidade das crenças e das religiões.


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

(Des)humanidade


O tema das universidades europeias é de suma importância, pelo que vi tratado, com inusitada competência, no livro «Os intelectuais na Idade Média», de Jacques Le Goff.
De cada vez que recuo no tempo para tentar encontrar o tempo presente verifico, porém, que as grandes questões filosóficas e religiosas continuam em aberto, como no paleolítico, neolítico, etc..
Vivemos aprisionados dentro de um universo que vamos conhecendo cada vez mais. 

Cada vez mais capazes de descrever e de explicar como funciona. 
Mas o nosso problema humano é outro. 
Que é que substitui ou satisfaz a nossa vontade? 
Pudesse ter todas as verdades no bolso da camisa. Fosse Deus.
Como é que isso iria resolver aquele problema da vontade?
Ou, dito de outra forma mais prosaica, um voto serve para alguma coisa?
E se forem todos os votos?
Vivemos numa sociedade que, embora evoluída cientificamente, se mantém arcaica e que não aprendeu, nem aprende com os erros e as dores dos outros, porque destituída de passado, ou, pelo menos, destituída da consciência desse passado, completamente descredibilizada na sua competência para resolver problemas sociais de sempre, mais empenhada no estudo da física atómica e dos astros do que no estudo dos problemas sociais e político-económicos, mais apodítica sobre as rochas e os meteoros do que informativa sobre a justiça e as desigualdades sociais, com mais conhecimentos sobre as galáxias do que sobre os factos sociais, mais segura das característcas físicas da matéria do que assertiva quanto às qualidades dos organismos vivos, a resvalar em movimento acelerado para mais uma catástrofe provocada por uma coisa irracional chamada (des)humanidade.
Faz falta um Newton e um Einstein e um Schrodinger das Ciências Humanas e Económico-Sociais.
Mas continua a ser muito mais difícil do que pareceria no dealbar das revoluções...

domingo, 23 de setembro de 2018

Estado crítico da matéria


António Gedeão é um dos meus poetas preferidos. 
Para o homem de ciência, não me admira que a poesia tenha sido a descoberta do estado crítico da matéria. 
O que me admira é a forma como ele tratou da matéria.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Novas formas de ganhar

         Não me colocaria do lado dos que se recusam a reconhecer que o planeta terra está a ser destruído pelo homem, de múltiplas formas irreversíveis, sem retorno, incluindo alterações climáticas desastrosas.
         Não é por, hipoteticamente, alguma alteração derivar de fenómenos extraterrestres, que me colocaria, não apenas contra as evidências, mas também do lado das improbabilidades, ignorando a enorme realidade da devastação dos habitats.
        Ou seja, não me colocaria do lado de uma qualquer teoria que torturasse, sacrificasse e maltratasse irreversível e definitivamente os factos, até e principalmente o facto de estarmos a ser destruídos, pela acção do homem e não só.
       Vivemos um tempo de alertas e de alarmes mais do que justificados. 
       As soluções baseadas e preconizadas em princípios e práticas antigas, instituídas pela força dos usos e dos paradigmas milenares de organização jurídico-política e económica são hoje um perigo, impensável nos alvores da industrialização e da exploração económica liberal e individual, dos recursos do planeta.
      Muito está a mudar e muito rapidamente, de tal modo que os modelos conhecidos de resposta política, jurídica e económico-social, nomeadamente internacionais, são incapazes de satisfazer as exigências de racionalidade e de fundamento que se colocam.
      Estou a pensar, por exemplo, no problema dos migrantes, dos refugiados...E no problema da apropriação e exploração dos recursos naturais das diversas regiões do nosso planeta.
      Os Estados e os povos não vão poder continuar a fingir que as coisas podem ser resolvidas e solucionadas com base nos princípios clássicos e antiquíssimos, mas muito primitivos e tacanhos, da soberania territorial estadual.
      O princípio de que o planeta é igualmente de todos, de que ninguém tem mais direitos, hereditários ou outros, nem títulos especiais e privilegiados de vocação ao património da humanidade, científico, cultural, material, vai ter de ser equacionado se se pretender responder a algumas das questões mais dramáticas e prementes do nosso tempo.
      Muitos se manifestam pelo que temem perder, mas vai ser preciso aprender novas formas de ganhar.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O inimaginável


Ninguém conseguiria imaginar uma rua como a minha, nem eu. 
O inimaginável exerce sobre mim uma atracção quase irresistível, mas tem, à partida, uma garantia de insucesso que desencoraja até o mais louco e imprudente dos aventureiros. 
Nada mais desafiante, portanto.
O pior de tudo é que a rua não existe. 
Podemos procurá-la por todo o lado. 
Tão pouco existe na minha cabeça. 
Tão pouco existe nas palavras que escrever sobre ela. 
Mas é uma rua muito interessante e muito antiga.
O que não existe pode ser muito interessante, muito mais interessante do que aquilo que existe. 
A maior parte do que não existe, se existisse, perderia o interesse. 
Ou talvez não.
Não é uma rua direita e sabe-se lá as razões e os sonhos que moldaram as pedras de cada esquina e as fechaduras de cada porta, quantos cavalos, com o barulho dos suas ferraduras na calçada, foram o despertador impiedoso de gente que, de outro modo, nunca teria acordado...
O que é certo é que não há ninguém que se lembre dessa rua movimentada, nem eu. 
Não há vestígios dela.
E isto é muito triste.
Nessa rua ninguém passa, nem passo eu. 
É uma rua habitada pelos fantasmas dos que viveram na esperança de que alguém os inventasse.