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sexta-feira, 4 de março de 2016

Ladrões da alegria


Declinam as horas
e o relógio insone  
às voltas
de olhos fechados 
sem horizontes
os ladrões da alegria 
já estão condenados
os sentidos
o dia
o que sinto
o que existe
a fantasia
o olhar 
de cada ausência 
do que parece
aguardar
surgir 
da sua clausura
como uma prece
com vontade
futura
o silêncio 
em que julgo ouvir
versos 
que não escrevo.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O rosto


De que          falamos 
quando 
                       falamos 
de              amor
de que ponto 
da nossa natureza
                  quando 
o amor fala
estamos 
suspensos de         
que bem
lembrados
de que alianças
e esperanças?



domingo, 3 de janeiro de 2016

O que importa e o que não



Dos olhos inundados
do momento
estremece
pensativa
a profundidade
do mar
na garganta
da vida
a afagar
a saudade.


domingo, 27 de dezembro de 2015

A danada da poesia


A danada da poesia
(como é danada)
água
(nunca estagnada)
em todo o lugar
tudo cria
(e tudo estraga)
penetra até ao fogo da terra
e queima
sobe até ao frio dos céus
e gela
pelo caminho ameno
anela
e silencia
para que se ouça o acontecer
desta feita 
a poesia
(indisposta com o simulacro)
do Natal
que ama os bons
meteu-se com os que se fazem passar
por bons
(que odeia)
e acha que é imperioso ouvir mais
os outros maus
(que odeia menos que aqueles)
que não querem enganar.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Se chegares


Porque o amor não é 
a mais vulgar das felicidades
é sobreviver à derrota
e ter alguma ilusão temporária
do perpétuo
o que sabemos é uma fonte
e o que temos
um baralho
de máquinas ruidosas
que destroem 
vertiginosamente
para serem úteis 
aos mortos que não pensam
nem sentem
porque o amor é 
a incompreensível verdade
que nos desgosta 
tanto
que nos mata 
de saudade
sem esperança
a mais vulgar das felicidades
não existe.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

sábado, 7 de novembro de 2015

Não sou daqui


Quando morro
nunca 
é para sempre
já morri mil vezes
mil
e o que me liberta
é sempre
 a mais insuspeita
das insignificâncias
talvez a foz de um rio
onde há um porto
que é lisboa
em mim
a partir
de antigamente
para sempre
porque sim.


sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Sentirás

O sol tem um caminho
o poeta não
vai à aventura
e quando a memória
não ajuda
pede ao futuro
que  não se repita
a história
o poeta dá
ao presente
a voz
de quem não grita
mas sente
a razão
mais que a dor
dos nós
da mentira
o tempo silencia
mas o poeta
canta
o amor
que levanta
maior
mais que grande
o poeta
expande
bem de todos
a força da palavra
que a todos aproveita.

sábado, 3 de outubro de 2015

Tanto tanto doer


Me dói esta voz
de tanto cantar
as mãos e os dedos

de tanto tocar
me dói a guitarra
de tanto agarrar

a vida me dói
de tanto morrer
me dói o silêncio

de tanto escutar
o tempo e a cabeça
de tanto pensar

me dói o sonho
de tanto acordar
tudo me dói

de tanto não ser
me dói o que é bom
de tanto esperar

me dói a promessa
de tanto fazer
me dói o gosto

de tanto provar
me dói o prazer
de tanto viver

me dói o dia
de tanto nascer
me dói os rios

de tanto mar
me dói o céu
de tanto olhar

me dói dizer
de tanto calar
me dói ser

de tanto amar
me dói querer
de tanto ser

me dói não ter
o prazer de te comer.

sábado, 29 de agosto de 2015

Palavras de amor


Escrevo à viva força
que as palavras não me obedecem
e sem eu querer por vezes
florescem
bem mais do que confio
que frutos dessem
o poema
acaba sempre por ser
o que não quero
uma verdade
mas
que não me agrada
uma palavra que
para desespero
se atravessa
e quebra a toada
o poema
fica
sempre fora de mim
a fazer-me sentir
prisioneiro
da própria liberdade
o mundo não é
lugar recomendável
para quem sonha
há inquietação até
na alegria
como se não houvesse
inocência
nem nos sacrifícios
para deixar de ser
atormentado
pelo mundo demónio
e carne
quando me abandonaram
senti que estava finalmente
livre
mas não supus
nem imaginei
sequer por um momento
que estivesse só
com o silêncio dos meus passos
numa visão irreversível
do mundo vazio
sem ti.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Estás a ouvir


Os nossos pensamentos nada podem
nada são
as possíveis palavras
num deserto
sem bússola
beija-me
precisamos mais do que palavras
para sairmos da prisão
de palavras.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sentir cansa


Cada vez sinto menos
Tanto menos
Quanto mais
Penso
Cada vez penso mais
Tanto mais
Quanto menos
Sinto
Sentir cansa
Sentir muito cansa
Imenso
E para aliviar
Penso
Sem descanso.


sábado, 23 de maio de 2015

A luz

A luz é diáfana
a manhã sinto-a
minha
o ar
pela primeira vez penso-o
mais íntimo do que nunca
Esta relação química literalmente
com o mundo
é a mais encantadora das histórias
das mais imaginárias
e não menos destituídas de fantasia
A minha atenção vibra com o que me envolve
O pior é a carga dos pensamentos
A agenda e não só
Tenho compromissos
E o menor deles não é o compromisso que tenho com a verdade
Para onde quer que vá
não consigo escapar a mim mesmo. 


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Morrer de amores


O que sobrevive 
à pré-história do amor 
o amor
a história do amor
ou as razões para morrer 
de amores?




sexta-feira, 1 de maio de 2015

Como nunca


O mais difícil  
são as distâncias
de impossíveis palavras 
no lugar do que é dito
escutar fonemas
como outras águas
brotando 
de um invólucro fissurado 
ver que há o fora das coisas
e que não é possível
falar das coisas por dentro
por não terem lá nada
ou nada mais
que o nosso pensamento
de ausências
difíceis.

sábado, 28 de março de 2015

O poema


Independentemente dos significados, que em poesia pode ser o menos importante ou o menos interessante, o poema toma o leitor por alguém que se vê, inopinadamente, diante de verdades e cenários que se lhe escondiam e que ele, em sonhos, sempre soube que existiam. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

Olhos de ver

Não vou entregar-me 
à tristeza
ela é asa 
cansada 
sobre o mar
seduz
a certeza do vento 
sopra
um mistério
empedernido 
não vou sequer escutar
não vou ter o prazer
da música
dos abismos
vou resistir 
ao apelo da tristeza
como quem resiste
ao adeus
e fica triste.

Carlos Ricardo Soares

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Podia ser
um laivo
do que nasce

a palavra
como o sol
nascente

a memória
confusa
iluminasse
o presente
podia ser
um laivo
de saudade.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Ficar no poema


Dói não poder 

ficar no poema
se fica num tempo 
inexplicável
como uma paisagem 
se nos depara
nos prende
numa viagem
que ainda não é de regresso. 


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Mel e Sal


Mel não dorme 
Sal acorda 
Mel faz um balanço da sua vida
tem a percepção de que viveu obcecada
com sexo comida bebida guloseimas 
esconderijos sombras e penumbras
mais do que ações e intervenções sociais
como se tivesse vivido dentro de um filme
de uma narrativa destituída de outros valores que não fossem o afecto
o erotismo a sensualidade a gula
enfim todos os pecados 
tudo o mais que saísse disso lhe parecera sempre aborrecido
e insuportável 
entregava-se de preferência a devaneios sem fim
e procurava livros que lhe alimentassem essa espécie de vício
passou por todas as dependências de quem busca
o prazer antes de tudo 
e nunca se libertou de nenhuma 
nem quando corria perigo de vida 
e o médico alertava
de D. Quixote 
Mel nunca teria a alucinação do cavaleiro corajoso e valoroso
considerava essa faceta desinteressante
Mel não tinha nenhuma espécie de megalomania 
e nunca aspirara a outra grandeza 
que não fosse todas as formas de prazer
com o tempo 
tornou-se colecionadora de receitas de prazer 
e se dedicava algum tempo a isso 
e a hierarquizá-las 
era em vista do prazer
Mel não sentia prazer nela própria
nunca pensaria nem diria como o poeta 
“sinto-me confortável e feliz comigo próprio”
a felicidade e o prazer eram exteriores
estavam em coisas e pessoas
dentro dela havia a carência
o desejo a fome
a paixão o vício
e sentia raiva
sempre sentiu por haver tantos interditos
tantas proibições
tantos limites
tantos entraves
tantas obstruções
Mel achava que a cultura era uma tentativa de dar espaço a algo 
mais do que regras de conduta e objetivos económicos.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Porque o amor deslumbra



Qualquer hora
tem eternidade
dentro
do indistinto dia
da noite
indistinta
tem esfinges que admito
serem
da minha idolatria
te sinto
na vastidão do sempre
aonde a memória
se perde
algum mar
começa
naquela lua
das palavras a nos esperar
ou nós a elas
tudo é
sem janelas
e nós o lugar.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Foi tanto o prazer


Foi tanto o prazer
foi tanta a paz
foi tanta a promessa

e a plenitude
nessa única tarde

as coisas
tinham memória
de sermos mais

que a verdade
à nossa volta

a poesia
do que éramos

tudo sentia
o que não podíamos.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

As línguas do amor


Por favor
Fala-me todas as línguas
Do amor
Que há-de haver alguma
Que eu compreenda

Se me falares só uma
Talvez a não entenda

Se houver uma escola 
De línguas do amor
Ou de amor
Ou ao menos de uma das línguas 
Do amor
Eu quero aprender 

O amor fala todas as línguas
Que nós desconhecemos.




sábado, 15 de novembro de 2014

Inverno na praia



Sempre me dói a miséria 
Dos mastins abandonados
Mais do que tristes 
Os seus olhares envergonhados 
As asas de chávenas 
Da Vista Alegre 
Partidas em bocados
Nas escadas à porta 
Do museu dos esmoucados
O porte e o pêlo de cão 
De uma disciplina fria
De prisão ao pescoço 
À coada luz do dia
Desejo não lhes lembre valentia
Tristes matilhas de colecção 
De joalharia 
Que ninguém quer roubar
Estômago não teria 
Para os inventar 
Gelam-me os ossos 
Fazem-me chorar
E são apenas podengos 
Que temem ladrar
Melancólicos famintos 
Hesitantes 
Preferem ficar 
Distantes
E passar por 
Assaltantes
Mas lixo 
São 
Os seus diamantes.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Se não houvesse ruas


Se não houvesse ruas
haveria caminhos
senão
o mar à volta
o deserto
a noite cerrada
o chão coberto
 de neve
o sol encoberto
um labirinto
se não houvesse casas
haveria grutas
bosques
florestas
senão
nem no dia
nem na noite
haveria frestas
por onde
os nossos olhos
se aventurassem
se não houvesse braços
se não houvesse alma
se não houvesse abraços.

sábado, 1 de novembro de 2014

O que fazem mortos


  Sobre o vale nada
  ecoa
  uma distância
  os horizontes
  uma luz 

  antiga
  como a espera
  um crepúsculo
  de recolher
  os gados derradeiros
  Camões

  é primavera
  está a chover
  uma chuva que a nós

visita do que era 
eternidade que é 
agora
sabemos que há mortos
por todo o lado
mais vivos
do que a própria saudade
e vivos sem liberdade
mais mortos
do que era de esperar
neste tempo
de venalidade
atroz
que rouba sonhos
como quem rouba ouro
que não derrete
e o que pode acontecer
é o que mais promete.


Vi ou vi ora viu ou viu


O privilégio que deve a Deus
recordar o bom que viveu e imaginou
enquanto desce ao poço do inferno
da restrita visão
da lanterna que treme
luz
na escuridão
é privilégio
e dom
ouvir um rio que não
se vê
e muito bem conheço
sentir um frio
que eu próprio arrefeço
pensar que não mudei
o mundo
para melhor
do que mereço
se fez de mim o que sou
não me conheço.



sábado, 25 de outubro de 2014

Ave da alegria


Essa ave será
rara
um dia
que ninguém diz
nas estórias
que a fantasia
à mesa da taberna
ou bar
ou como lhe chamam
ave da alegria
de todos os caçadores
da morte
nos sorrirá
e nós
morcões continuaremos.

sábado, 18 de outubro de 2014

A minha guitarra


A minha guitarra vai sempre
comigo
não se faz rogada
toco-lhe o umbigo
e ela me agarra
transfigurada
de esperança
é feita
de dor
cantada

A minha guitarra leva-me
pela mão
com que lhe toco
no coração
se quero farra
se a provoco
ela é perfeita
na reacção

Mas se estou triste
ela me solta
e me canta
e me escolta
e resiste
e pinta a manta
de tons profundos
nunca está cansada
a minha guitarra.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O poeta declara por sua honra


O poeta declara por sua honra
Que não sabe 
Onde ouvirás sinos de palavra
Se nos sulcos de mãos limpas
Ou se é pouco ou nada estares
Disponível para azares
Se não os procurares

Que por envergares traje
E barrete napoleónicos
Ainda menos figura fazes
Do que uma cavalgadura

Que quem espera ser servido
Só conhecerá os manjares
Do que é requerido

Se o esperar é muito mais
Que o desdenhar
Incomparável é procurar

Que ao sábio se consinta 
Invocar cepticismo
E que aos demais 
A ignorância
Seja tolerada…
… … … … … 

sábado, 27 de setembro de 2014

Sedutora

Nos olhos 
de sempre
de pura 
luz
de algum momento 
do dia
alguém 
não ignora
que sonho és tu.

sábado, 20 de setembro de 2014

Não sei se me compreendes


Se compreendesses o que eu sinto
Quando a imperatriz despe o único manto
Que a resguardava da história de amor
Que veio a acontecer
No maior dos segredos
Apenas partilhada com imenso prazer
Com os pássaros dos jardins
Que a imitavam
E propalavam alegremente
Em deslumbrantes gorjeios…

Se não me compreendes
Não me compreendas
Não sei se me compreendes.