sábado, 8 de março de 2014
O sonho é vago mas a luz é forte
O sonho é vago
Mas a luz é forte
No mar de faúlhas
Lágrimas de sol poente
A vida passa
No horizonte de asas
Efémeras e tranquilas
De uma gaivota branca
Respira coração respira
Como se existisses desde sempre
Na alma do mundo
E nunca te esquecesses
E avista para lá das nuvens
O azul do céu mais matinal
Porque eu sei que um sonho
É feito de muita ternura natural
É quando te digo meu amor
E me enriqueço tanto por te ter
É quando desejo que o fragor das ondas
Seja um hino todo nosso até morrer.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Horizontes
A noite tem horizontes
De olhos doces
Como o vapor da sopa
No inverno
Luzes astrais
No tecto falso
Alcance ultramoderno
Dentro de muros
Medievais
Quem mandou construir o castelo
Não chegou a vê-lo
Dentro da noite
A escadaria
Termina
Num oratório
As sombras indecisas
Sem interior
Como azulejos
Ao gosto
Da época
Revestem
As paredes
Que restam.
Carlos Ricardo Soares
domingo, 2 de março de 2014
As línguas do amor
Por favor
Fala-me todas as línguas
Do amor
Que há-de haver alguma
Que eu compreenda
Se me falares só uma
Talvez a não entenda
Se houver uma escola
De línguas do amor
Ou de amor
Ou ao menos de uma das línguas
Do amor
Eu quero aprender
O amor fala todas as línguas
Que nós desconhecemos.
Carlos Ricardo Soares
sábado, 1 de março de 2014
Não deixes
Não deixes que a palavra te corrompa
Como uma moeda falsa que depões
Na mão do diabo disfarçado de mendigo
Não deixes que a palavra se alimente da tua alma
Como um salmo se hospeda num sepulcro
E te enlouqueça e te leve o corpo
Não deixes que te o tire te o esqueça
E te converta em espectro caiado
Sem sede nem fome
Sem nascente nem ocaso
Sem nome.
Carlos Ricardo Soares
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Sinto-me triste
Estou triste
Sinto-me triste
Nas conclusões que tiro
Até das coisas mais lindas
Que tem a vida
Sinto-me triste
Por não sentir alegria
Só de pensar
Que as histórias
Não têm final feliz.
O meu amor por ti
O meu amor por ti
Não é de perguntas
E de respostas
Não é estado
Nem condição
Triunfo
De coisa nenhuma
Canção
Por ti
Meu amor
Incrível flor
Sem terra
Que se abre
Débil
Esperança no deserto
Mais que o eco
Sobrevive
A certezas
Costumadas
Às palavras
Ao vento
À canção
Que mais ninguém ouve.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Caçador de manuscritos
Olho para este tempo de chuva
observo ventanias e ondulações
noite e dia à espera
da hora
de desfraldar as velas
e esquecer Palermo
precipitar-me-ei sobre manuscritos
onde reis depostos
fazem guerras para reconquistar
vésperas de terramotos
exortarei religiosos
a traduzirem suas vidas
em versões
dos livros sagrados
e aos homens de ciência
conferirei o poder
que não têm
para aceitarem a realidade
exceto a dos erros cometidos
que possam ser corrigidos
e exortarei a saberem lidar
objetivamente
com conhecimento
e ciência do bem e do mal
sem cederem à tentação
de manipularem os elementos
para qualquer fim
neste retiro forçado
noite e dia à espera
da hora
de desfraldar as velas
e esquecer Palermo.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
O meu corpo
Agora
Deito o meu corpo
Cansado
O meu corpo
Que nunca foi
E não merece ser
Tratado como um fardo
Deito-o
Com cuidado
Que ele já não me ouve
Nem se segura
Do princípio ao fim
Da vida breve
Não o sinto pesado
Nem leve
Nem sei se dá por mim
É um corpo calado
Que nada me deve
E é tão bom assim.
Deito o meu corpo
Cansado
O meu corpo
Que nunca foi
E não merece ser
Tratado como um fardo
Deito-o
Com cuidado
Que ele já não me ouve
Nem se segura
Do princípio ao fim
Da vida breve
Não o sinto pesado
Nem leve
Nem sei se dá por mim
É um corpo calado
Que nada me deve
E é tão bom assim.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
O meu sonho
Ao olhar para a agenda pus-me a reflectir sobre as tarefas marcadas para este dia e perdi-me em pensamentos sobre as minhas origens e como tenho sido, desde sempre, um homem sem sonhos (se é que eu, por não ter sonhos, compreendo o que isso é).
A primeira coisa que me ocorreu ao ver que tinha de apresentar-me no posto da GNR às 14:30h, foi que, aos oitenta anos, eu podia ser preso por crimes que nunca cometi. De repente, este pensamento tomou-me completamente ao ponto de eu esquecer que a minha morte que o meu médico tinha agendada devia preocupar-me mais. Nem sei se houve algum motivo inconsciente para que deixasse de anotar na agenda o facto previsto (com data marcada) da minha morte. Se calhar foi porque numa agenda só devem constar coisas da vida. É capaz de haver quem consiga explicar lindamente estas curiosidades.
E, sem me aperceber, acabei por embrenhar-me em profundas meditações sobre os meus pais e os meus primeiros tempos de vida. Éramos uma família rica. Diria até, podre de rica. Faltava-nos o que não tínhamos, e que era imenso, como a toda a gente, mas tínhamos muitas coisas que faltavam à esmagadora maioria da população. Ouro tínhamos muito. Sonhos, que eu saiba, nenhuns. Ignoro se alguma vez estes nos fizeram falta, aos meus pais e a mim. Nem quando ouvia continuamente na rádio uma cançonetista ligeira repetir em notas alegres que não tinha ouro mas tinha tudo porque tinha sonhos. Hoje, interrogo-me sem saber a razão de o meu cavalo lusitano, que eu montava com cinco anos de idade, se chamar Sonho. Só os meus amigos percebiam que era de um cavalo que se tratava quando eu dizia que cavalgava o Sonho.
Um dia, referindo-se a um homem andrajoso que percorria as freguesias a pedir esmolas e que eu admirava por, na sua simplicidade, dizer poesias em tom profético e magistral, Valquíria, a mulher mais velha da quinta, que já servira no tempo dos meus avós, segredou-me, convicta da minha cumplicidade, que aquele homem era muito rico porque tinha um sonho.
Eu sempre quis ter um sonho, porque parecia evidente que isso era o melhor que se pode ter. E dizia-o sem rebuço. Até nas minhas orações, sobretudo quando a vida corria mal, eu pedia a Deus que me desse um sonho. À medida que os anos passavam e que eu tinha cada vez mais tudo o que queria, mais intensa e perplexa era a minha necessidade, o meu desejo, de ter aquilo que todos tinham sem dificuldade e que eu nem com rezas conseguia.
No meu décimo aniversário, quando o meu avô perguntou o que eu queria de prenda, não pensei no regresso da minha querida mãe, que tinha abalado há menos de um ano e nos deixara inconsolavelmente inconformados e infelizes. Disse-lhe simplesmente que queria ter um sonho.
Ele não mostrou surpresa. Sorriu com um sorriso de compreensão que me deixou confortado e, por fim, disse «também vivi até hoje com esse sonho». O meu avô tinha setenta anos. Era um poeta que nunca vi a escrever ou a ler versos que tivesse escrito.
Não tenho a certeza de ter compreendido o alcance da resposta que o avô me deu. Uns anos mais tarde, uma miúda cujo nome não esqueci mas não vou revelar e que eu achava a única rapariga digna de ser considerada bela, cruzou-se comigo no escuro do corredor de acesso à biblioteca do liceu, encostou-me um dedo ao umbigo e de olhos fulminantes atirou: «todas as raparigas sonham com um rapaz como tu!».
Há coisas que têm mais ou menos influência e repercussões na vida das pessoas. A minha vida foi definitivamente marcada por este episódio. E ainda agora me surpreendo a tirar ilações desse acontecimento: ela não disse que eu era o sonho de todas as raparigas, nem que eu era o sonho dela.
A tosse cavernosa do reitor, que saiu do seu gabinete a escassos passos de nós, anulou a minha tentativa de fazer algo mais que ficar calado. E a única rapariga digna de ser considerada bela foi embora sem saber o que eu lhe teria dito.
Desse episódio a imagem que guardo com mais nitidez é a do reitor envolto numa nuvem de fumo de tabaco a expelir relâmpagos de um cigarro seguidos do trovejar assustador da última vez que tossiu.
Não estive nas cerimónias fúnebres.
A primeira coisa que me ocorreu ao ver que tinha de apresentar-me no posto da GNR às 14:30h, foi que, aos oitenta anos, eu podia ser preso por crimes que nunca cometi. De repente, este pensamento tomou-me completamente ao ponto de eu esquecer que a minha morte que o meu médico tinha agendada devia preocupar-me mais. Nem sei se houve algum motivo inconsciente para que deixasse de anotar na agenda o facto previsto (com data marcada) da minha morte. Se calhar foi porque numa agenda só devem constar coisas da vida. É capaz de haver quem consiga explicar lindamente estas curiosidades.
E, sem me aperceber, acabei por embrenhar-me em profundas meditações sobre os meus pais e os meus primeiros tempos de vida. Éramos uma família rica. Diria até, podre de rica. Faltava-nos o que não tínhamos, e que era imenso, como a toda a gente, mas tínhamos muitas coisas que faltavam à esmagadora maioria da população. Ouro tínhamos muito. Sonhos, que eu saiba, nenhuns. Ignoro se alguma vez estes nos fizeram falta, aos meus pais e a mim. Nem quando ouvia continuamente na rádio uma cançonetista ligeira repetir em notas alegres que não tinha ouro mas tinha tudo porque tinha sonhos. Hoje, interrogo-me sem saber a razão de o meu cavalo lusitano, que eu montava com cinco anos de idade, se chamar Sonho. Só os meus amigos percebiam que era de um cavalo que se tratava quando eu dizia que cavalgava o Sonho.
Um dia, referindo-se a um homem andrajoso que percorria as freguesias a pedir esmolas e que eu admirava por, na sua simplicidade, dizer poesias em tom profético e magistral, Valquíria, a mulher mais velha da quinta, que já servira no tempo dos meus avós, segredou-me, convicta da minha cumplicidade, que aquele homem era muito rico porque tinha um sonho.
Eu sempre quis ter um sonho, porque parecia evidente que isso era o melhor que se pode ter. E dizia-o sem rebuço. Até nas minhas orações, sobretudo quando a vida corria mal, eu pedia a Deus que me desse um sonho. À medida que os anos passavam e que eu tinha cada vez mais tudo o que queria, mais intensa e perplexa era a minha necessidade, o meu desejo, de ter aquilo que todos tinham sem dificuldade e que eu nem com rezas conseguia.
No meu décimo aniversário, quando o meu avô perguntou o que eu queria de prenda, não pensei no regresso da minha querida mãe, que tinha abalado há menos de um ano e nos deixara inconsolavelmente inconformados e infelizes. Disse-lhe simplesmente que queria ter um sonho.
Ele não mostrou surpresa. Sorriu com um sorriso de compreensão que me deixou confortado e, por fim, disse «também vivi até hoje com esse sonho». O meu avô tinha setenta anos. Era um poeta que nunca vi a escrever ou a ler versos que tivesse escrito.
Não tenho a certeza de ter compreendido o alcance da resposta que o avô me deu. Uns anos mais tarde, uma miúda cujo nome não esqueci mas não vou revelar e que eu achava a única rapariga digna de ser considerada bela, cruzou-se comigo no escuro do corredor de acesso à biblioteca do liceu, encostou-me um dedo ao umbigo e de olhos fulminantes atirou: «todas as raparigas sonham com um rapaz como tu!».
Há coisas que têm mais ou menos influência e repercussões na vida das pessoas. A minha vida foi definitivamente marcada por este episódio. E ainda agora me surpreendo a tirar ilações desse acontecimento: ela não disse que eu era o sonho de todas as raparigas, nem que eu era o sonho dela.
A tosse cavernosa do reitor, que saiu do seu gabinete a escassos passos de nós, anulou a minha tentativa de fazer algo mais que ficar calado. E a única rapariga digna de ser considerada bela foi embora sem saber o que eu lhe teria dito.
Desse episódio a imagem que guardo com mais nitidez é a do reitor envolto numa nuvem de fumo de tabaco a expelir relâmpagos de um cigarro seguidos do trovejar assustador da última vez que tossiu.
Não estive nas cerimónias fúnebres.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Sonhar quem és
Não chegarás a conhecer-te se não
Sonhares quem és nem pátria
Nem história te dirão nada
Do que vês
Nenhum poema será o poema
Da esperança de ser
A tua vez
A única verdade
Que a tua razão não é capaz
De ignorar completamente
Faz de ti infinitamente mais
Do que um oceano a quem falas
Como se fosse o teu irmão morto
Que tão pouco morreu
E sequer ouve
Quando o invocas por tu
E no eco da tua voz
Encontras as palavras perdidas.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Perdi-me nas tardes de Verão
Desiste de procurar-me
Nem eu sei
Onde me perdi
Nas tardes de Verão
Onde perdi o livro
Que andava a escrever
Sobre as tardes de Verão
Em que me perdi
Antes de te encontrar
Se fosse numa ilha
Era fácil partir do princípio
De que só podia estar lá
Mas foi num continente
Que não existe
E nisto nunca irás acreditar.
sábado, 25 de janeiro de 2014
A alegria por mais pequenina que seja
Naquela altura
eu não sabia
do futuro
se ninguém sabia
nem de si
quanto mais de mim
e do futuro
que nem sequer existia
o que eu queria
era pouco
mas muito
quase tudo
para mim
cada dia
como o sol queria
uma montanha
para ir subindo
além
eu não seria capaz
de partir
por nenhuma razão
ninguém me prometeu
ou deu esperanças
nem eu
porque a esperança
não existia
existiam pessoas
como eu
e de esperança
só sentia
que a alegria
por mais pequenina que seja
é mais forte
que a maior desgraça
mas que também
fraqueja.
eu não sabia
do futuro
se ninguém sabia
nem de si
quanto mais de mim
e do futuro
que nem sequer existia
o que eu queria
era pouco
mas muito
quase tudo
para mim
cada dia
como o sol queria
uma montanha
para ir subindo
além
eu não seria capaz
de partir
por nenhuma razão
ninguém me prometeu
ou deu esperanças
nem eu
porque a esperança
não existia
existiam pessoas
como eu
e de esperança
só sentia
que a alegria
por mais pequenina que seja
é mais forte
que a maior desgraça
fraqueja.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Quando olho é como se já não visse
Quando olho é como se
já não visse
por ser tão longe e
tão profundo
o significado em que
tudo o que vejo
se tornou
nesta surpresa que
sempre procurei
quando acreditava que
o futuro
era o tempo de
realizar sonhos
que o presente então
ao meu esforço negou
eu olhava e era como se não visse
por não ser preciso
mesmo assim eu queria
ver
o significado em que
tudo se tornaria
o presente me dá
quase sem eu querer
quando olho como se
já não visse
o que desejava ver.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Tudo está errado
Fui feliz onde vivi
Cada momento como se não houvesse outro
Olho o que se me oferece
Não escolho ver
Para além do que conheço
Contemplo se me apetece
Se não
Está errado o que existe?
Está errada a forma
Como vemos
E como sentimos
E como pensamos
E como vivemos
Salvo erro
Tudo está errado
E é por isso
Que não podemos parar
De corrigir.
Cada momento como se não houvesse outro
Olho o que se me oferece
Não escolho ver
Para além do que conheço
Contemplo se me apetece
Se não
Está errado o que existe?
Está errada a forma
Como vemos
E como sentimos
E como pensamos
E como vivemos
Salvo erro
Tudo está errado
E é por isso
Que não podemos parar
De corrigir.
sábado, 11 de janeiro de 2014
Para que não se faça silêncio
Estamos à beira de qualquer coisa que não sabemos o que é
E não é noite
Fitamos o curso da vida e que aprendemos?
Com um sufoco de revolta na garganta
Não nos abraçamos
Ouvimos o canto dos pássaros
E blasfemamos
Temos as mãos próximas
E não as damos
Porque preferíamos que as estrelas
Não existissem
Tristes muito tristes vamos
Desconfiados das próprias sombras
Se amamos
Não nos lembramos
Se estamos vivos?
Estejamos
Porque temos medo
E raiva e ódio e desespero
A morte é pouco menos que isso
E arremessamos palavras
Para que não se faça silêncio.
E não é noite
Fitamos o curso da vida e que aprendemos?
Com um sufoco de revolta na garganta
Não nos abraçamos
Ouvimos o canto dos pássaros
E blasfemamos
Temos as mãos próximas
E não as damos
Porque preferíamos que as estrelas
Não existissem
Tristes muito tristes vamos
Desconfiados das próprias sombras
Se amamos
Não nos lembramos
Se estamos vivos?
Estejamos
Porque temos medo
E raiva e ódio e desespero
A morte é pouco menos que isso
E arremessamos palavras
Para que não se faça silêncio.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Conquistador
Recostei-me para pensar
Que os mansos dominarão a terra
E acabei deitado a falar sobre a morte
Para um gravador das câmaras
De vigilância da minha própria solidão
Dúvidas há quanto ao ressonar
Que se confunde com o desumidificador
Mas não quanto ao sonhar
Como um montanhista que tivesse caído
Pela garganta de um desfiladeiro
Ouvindo o desespero do próprio eco
E chorasse um choro verdadeiro
O momento em que falece
O conquistador
O momento da verdade
A derrocada estrondosa
De quantos quiseram impor
A sua vontade.
Que os mansos dominarão a terra
E acabei deitado a falar sobre a morte
Para um gravador das câmaras
De vigilância da minha própria solidão
Dúvidas há quanto ao ressonar
Que se confunde com o desumidificador
Mas não quanto ao sonhar
Como um montanhista que tivesse caído
Pela garganta de um desfiladeiro
Ouvindo o desespero do próprio eco
E chorasse um choro verdadeiro
O momento em que falece
O conquistador
O momento da verdade
A derrocada estrondosa
De quantos quiseram impor
A sua vontade.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Beijos que te quero dar
Os teus olhos são o riacho emboscado
Onde hortelãs selvagens proliferam
O Verão feliz que não voltei a ter
Os reflexos que me deram
A imagem do que quero ser
Esta cidade não é
O chão luxurioso
De açafrões e margaridas
À espera do vento
Para se polinizarem
Mas a noite é
Desse tempo
De luar e água
Se casarem
Sofri
Mas valeu a pena
Pelos desejos imensos
Que aprendi
A não saciar
Pelos beijos
Que te quero dar.
domingo, 29 de dezembro de 2013
Mundo em ruínas
Perdoem-me se rio
Enquanto caminho
No mundo
Em ruínas
De mãos dadas com uma mulher
Que resplandece
Perdoem-nos esta vontade
De viver
Galgando
Sonhos
Desfeitos
Até aos cumes do que acontece.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
As coisas não têm de ser como são
A primeira vez que
pus música
Onde só havia
silêncio
Foi como a primeira
vez que
Numa rua sem vivalma
Pus personagens a
circular
Para me convencer
De que as coisas não
têm de ser
Como são
Onde havia uma casa
fechada
Abri uma confeitaria
E onde havia nada
A entrada
À poesia
A uma mulher que ia
À sua vida
Com duas tempestades
E a mesma escuridão
Nos olhos
Vi relâmpagos divinos
Na noite
De amor
Num deserto
Que nos escutava.
domingo, 22 de dezembro de 2013
Este Natal
Este Natal está ainda
mais cheio
de memórias
mais vazio de
riquezas
perdidas
mas o meu coração
está onde está
o meu tesouro
não as minhas
certezas
este Natal está ainda
mais cheio
de incertezas
e isso dá-me
esperança
num mundo em que as
pessoas
parecem senhores
de uma verdade
triste.
domingo, 15 de dezembro de 2013
Vocês já viram
A rua sem cidade
o caminho do
princípio
ao fim do mundo
a concavidade
dos pensares
das florestas
do deserto
dos sentires
a sinuosa linha
do seres
entre o longe e o
perto
saberes
as aves à espera
de um dia ainda
mais longo
que a noite
quantos morreram
sem que nada mudasse
o registo de tudo
na face da terra
que é a nossa face.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Não mates o poeta
Como o douro sente
As margens alagadas
Do céu
Não impeças a terra
De se exaltar
Na luz
Amparado
Por sabermos
Que não seremos os
melhores
Dos que passaram
Não mates o poeta
Que resta
E não encontraram.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Vejam como o tempo passa
De alguma janela
Se avista
Algum lugar perdido
Para sempre
O olhar
Se escusa
Ferido
Com o tempo
Se fecha
O tempo
Quanto mais não seja
Passa
Não passa?
Não o vejo!
sábado, 7 de dezembro de 2013
Sei
Sei o imenso sol laranja
Seio que roça a minha face
Aos poentes fatais
Me engano eu
Que nada mais
Me engana
O brilho dos teus olhos doces
O fogo entre nós
Funde-nos como se fosses
A boca da minha voz
Sei os
Teus seios
Na paisagem desfocada
Das respostas difíceis
Às interrogações da luz
Mas não sei o peso
Das palavras que digo
Depois de ser salvo
Por esse silêncio
Desconhecido.
Seio que roça a minha face
Aos poentes fatais
Me engano eu
Que nada mais
Me engana
O brilho dos teus olhos doces
O fogo entre nós
Funde-nos como se fosses
A boca da minha voz
Sei os
Teus seios
Na paisagem desfocada
Das respostas difíceis
Às interrogações da luz
Mas não sei o peso
Das palavras que digo
Depois de ser salvo
Por esse silêncio
Desconhecido.
sábado, 30 de novembro de 2013
Nem tudo pode ser dito por palavras
Nem tudo pode ser dito por palavras
quando os teus olhos partem
o meu coração
para dizer-te quanto me agradas
bastasse um poema
bastasse esta canção
de amor
paixão
mas o silêncio às vezes diz
melhor
melhor
aquilo que nos vai na alma
nem tudo pode ser dito por palavras
quando o sentimento é mais
que uma ilusão
para dizer-te adeus
tropeço
tropeço
nas palavras
e espero que me dês a mão
meu amor
meu amor
não estou a dizer nada que não soubesses
posso dar-te tudo o que mereces.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Convite
Aceito o teu convite para ir a tua casa
Tomar café
Mas como estarás vestida?
E não aparecerá ninguém
(a cantar numa voz de ópera?)
Já te vi subir o pano
Como o suave sol de Maio
Sobe a colina
Faz-me ver grandes nuvens brancas
E temer adormecer
Sem o desejar.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Poema de aventura interminável
A vida pode não ser
aventura
do vivente
pode não ser
aventura de quem a vê
é sempre
de quem a pensa
fio de uma história
não tem fim
é sempre
o princípio de outra
não tem glória
nem triunfo
quem morre
quem vive
tem memória
e desejo
ilusões
que fazemos
ou não
verdadeiras questões.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Julgar o passado
Julgar é acto
de consciência para julgar
com acerto não basta ciência
é preciso mais do que tudo
ter juízo
cada cabeça sua sentença
mas o que importa
não é a sentença
é a justiça em causa própria
ninguém é juiz
se fazemos juízos
acerca do que fizemos
melhor faríamos
acerca do que não fizemos.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Cravos não são rosas
Cravos
não são rosas
cravados
crucificam
causam
dores
causam
dores
não são
flores
flores
descravar cravos
liberta de dores
cravos flores
não cravam
nem descravam
não são verrugas
e cheiram
a liberdade
a quem a não tem.
sábado, 20 de abril de 2013
Tudo desaparece
Tudo desaparece
E eu
No escuro
Com as minhas fantasias
Que não são memórias
Que memórias tenho poucas
De alguma luz
E pensamentos muitos
No meu barco a flutuar
Sem que o possa parar
Sem um destino
Ou se o tiver
Não é meu
Nem sei
Que o meu destino
Se o souber
É que
Tudo desaparece
E eu
Sou
O que acontece
À escala
Minha e do barco em que vou
Que flutua mas não acorda
Nem adormece.
E eu
No escuro
Com as minhas fantasias
Que não são memórias
Que memórias tenho poucas
De alguma luz
E pensamentos muitos
No meu barco a flutuar
Sem que o possa parar
Sem um destino
Ou se o tiver
Não é meu
Nem sei
Que o meu destino
Se o souber
É que
Tudo desaparece
E eu
Sou
O que acontece
À escala
Minha e do barco em que vou
Que flutua mas não acorda
Nem adormece.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Há horas e momentos
Há horas e momentos
Que te sinto
Tão perto que te abraço
E tu não estás
E ainda assim
Imagino como és doce
Sorris
E os beijos
Que és capaz
Há horas e momentos
Que te sinto
Tão longe mas tão certo
Que virás
Que canto e danço
E brinco
Como imagino
Que serás
Há horas e momentos
Que me sabem
À mínima distância
Entre nós
Ir além de ti
O que separa
Nem tempo tem
Para o conseguir
Há horas e momentos
Que me sabes
Mais quente
Que a promessa
Que farás
Mais presente de futuro
Se a razão do tempo
Tanto faz
Há horas e momentos
Cruciais
Causa(dores) do universo
Em expansão
De tão plenos
Da falta que me fazes
Senão de ser humana
Esta paixão
Há horas e momentos
Tão profundos
Fechados em abismos
Tão carnais
Que a alma
Em ânsias de refúgio
Ecoa juramentos
Imorais
Há horas e momentos
Que contemplo
À sombra das aves
Que passarem
A solidão
Sem exemplo
Dos sonhos
Me abandonarem.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Mas o meu poema agora é outro
Não me falta a música íntima
nem a emoção que renasce
das cinzas
tenho memória ínfima
mas lembro tanto
que o agora imenso
é muito mais do que sou
entre margens de um rio
que as não tem
eu canto.
nem a emoção que renasce
das cinzas
tenho memória ínfima
mas lembro tanto
que o agora imenso
é muito mais do que sou
entre margens de um rio
que as não tem
eu canto.
sábado, 19 de janeiro de 2013
Sinto que fui longe de mais
É no regresso
às origens
à terra mitológica
da infância
que eu sinto
que fui longe
de mais
na distância
e é por isso
que não consigo
regressar
aonde eu penso
que ficou
a ânsia de voltar
quando decidi
deixar para trás
quanto possuía
e parti
para o desconhecido
com a alma
cuja solidão
desconhecia.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Ao luar
Ao luar
tudo é sonho
e tudo é verdade
triste
de uma saudade
que ninguém disse
o rio é sonho
o barco é de ouro
triste
a cidade em que me
despedi
já não existe.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Canção do que cansa
A dança
quem não dança
esperança
cansa
razão
mais do que não
amar
cansa
descansar
viver
contar
dinheiro
comer beber dormir fugir sofrer
ganhar
perder
cansa
não pensar
mas pensar
cansa.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
O tribunal
O tribunal ruiu
o hospital pediu
socorros
ninguém acudiu
o mecânico de automóveis
quis telefonar
quis telefonar
não conseguiu
o restaurante
não abriu
a mercearia
o banco
as ruas estavam inundadas
as lojas submersas
os candidatos à presidência
passaram
de gôndola veneziana
com espírito de sobrevivência
tanta gente a sofrer de amor
e de falta de amor
vidas e famílias
desfeitas
a penar
milhares de poetas
nas nuvens
na lua
ao luar
neste momento
a noite progride
a grande velocidade
o cansaço não se compadece.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Vi ouvi ora viu ouviu
O privilégio que deve
a Deus
recordar o bom que
viveu e imaginou
enquanto desce ao
poço do inferno
da restrita visão
da lanterna que
treme
luz
na escuridão
é privilégio
e dom
ouvir um rio que não
se vê
e muito bem conheço
sentir um frio
que eu próprio
arrefeço
pensar que não mudei
o mundo
para melhor
do que mereço
se fez de mim o que
sou
não me conheço.
domingo, 2 de dezembro de 2012
Mas por que triste razão
Por que triste razão
Estais feliz
E eu não?
A minha música
Cessou
E eu
Sinto dó
Por não ser
Feliz
Mas por que triste
razão
Não me sinto feliz
E vós não?
Não sentis
Triste razão
Volúpias fantasmais?
Não sentis
Pois não?
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
É nu poema
É no poema
nu poema que
a bússola
do que dá
a arte
ao desconhecido
acontece
nada
(nada) se deve
que seja cumprido
e (o que) se cumpre
se não for devido
música
se perde do que é
no ruído
nu roído.
a bússola
do que dá
a arte
ao desconhecido
acontece
nada
(nada) se deve
que seja cumprido
e (o que) se cumpre
se não for devido
música
se perde do que é
no ruído
nu roído.
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