A idade e o tempo deitam-se na mesma água
E acordam longe de tudo o que faz o encanto
De dois rios que se atravessam
Seguindo em direcções diferentes
A caminho do mesmo espanto
Cada vez mais distantes
As idades iniciais
Médias
Finais
São tão diferentes disso
Que as acho iguais.
Os milénios os séculos as décadas
Os anos os meses os dias as horas
São tão dignos de atenção
Que não temos vida para compreender
O tempo que vivemos
Este morto
Já não vive
Já não lhe digo tu
Não deixes que te matem
O sol e o mar ao largo
Vemos
Deste cemitério
De uma das mais de cem
Cidades
Sempre nos perdemos
Como perde quem
É a ponte mas não sabe
Entre eras e idades
Este morto
Não fala
Fria fronte
Face desentendida
Já não lhe dizem tu
O destino
A nós se reserva.
um rosto o que vês não é o reflexo do que conheces o espelho é uma porta aberta para a eternidade a entrada interdita à luz dos olhos não estavas à espera que um espelho fosse um pensamento que podes estilhaçar mas não consegues desarmadilhar embora penses que há-de haver uma chave para compreenderes o que pode acontecer de mal a um homem bom a verdade não tem fechadura.
Os meus poemas nem sempre iluminam
Nem sempre obscurecem
Os meus passos
Nem sempre sobem
Nem sempre descem
Escarpas
Escadas
A minha imaginação
Nem sempre se perde
Nem sempre me perde
Atalhos
O meu mundo nem sempre aparece
Nem sempre o reconheço
Recônditos de asas
Repouso
Um pouco por toda a parte
O meu diário nem sempre é aquilo
Em que escrevo
Nem sempre escrito
Nem sempre apagado
A minha aventura nem sempre no espaço
Poemas atraem
O futuro
O seu calor nem sempre mata
Ilha
No crepúsculo
Nem sempre
A montanha
Atrás de outra
Nem sempre perdi o cavalo
Nem sempre ouvi
Uivos.
Onde medra a anomia
É farta a vilanagem
O que não é feito com arte
Não é bem feito
Onde há arte
Há poesia
Não há crime perfeito
E se existisse
A arte não seria
A puta
Que o parisse
Se a arte tem defeito
Ainda ninguém o disse.
Um belo dia encontrou-se sem dinheiro. Estava sozinho. O dinheiro não, ele. Como sempre. Mas dessa vez, pior.
Estava um belo dia. Como o mundo nunca lhe parecera. Dizer mundo significa a perspectiva da esquina da rua das pontas de cigarro no chão com o beco das ratazanas arroxeadas de fome, como barrigas de figos.
Não. Decididamente, não era uma perspectiva friorenta e emporcalhada. De nauseabunda, só a ideia de que rir implicava abrir a boca e arreganhar a taxa e de que respirar, só pelo nariz e o estritamente necessário.
Sentia-se tão impossível… que tinha vontade de rir, senão a bandeiras despregadas, pelo menos a bom rir.
Estava um belo dia. Como o mundo nunca lhe parecera. Mas inacessível.
Em algum lugar, da sua imaginação, havia fartura e muito desperdício.
E ele, sem dinheiro.
Excluído? Não. Sentia-se incluído na ideia de que tudo lhe era estranho . Qualquer coisa em que tocasse tinha dono. Achava que até as ratazanas de felpos baços, à míngua de lixo e de toda a espécie de porcaria e de dejectos, o miravam como um concorrente a temer.
Triste e injusta conjectura. Poucos sítios como aquele dispensavam serviços de limpeza e recolha de imundícies. Cada dia que passava a população de ratazanas ficava reduzida a metade. Sem estudo se concluiria que, dentro de uma semana escassa , e sem qualquer desratização sistemática, o último abencerragem deveria os derradeiros momentos de sobrevivência ao facto extremo de devorar cadáveres dos congéneres.
Bichos alimentam-se da própria decrepitude. O poeta diz que a vida é o triunfo sobre a podridão. A podridão não diz nada, mas é a vida. Em teoria e na prática. Quem o disse ainda não foi identificado, mas as autoridades de investigação prosseguem no zeloso cumprimento das funções que lhes são cometidas de documentarem a estória.
Ao mesmo tempo, sentia uma nova e estranha alegria. Uma lucidez excepcional mostrava-lhe quão artificial é a organização social e os direitos e os conceitos e os preconceitos. Descobrir motivos racionais de desprezo e de ódio dava-lhe uma estranha e perversa satisfação. O desprezo e o ódio injustificados são insuportavelmente nojentos. Mas se tiverem razão de ser, pelo menos, tornam-se suportáveis e talvez deixem de ser nojentos e talvez se tornem filosóficos e eticamente toleráveis.
Tudo lhe parecia imagem e representações destituídas de senso. Um filme, consigo dentro. Personagem que se movia dentro de um mundo de ideias blindadas. E começou a ver muitas coisas que nunca tinha visto.
Dons Quixotes a aparecer com demasiada frequência, mas uniformizados e lustrosos e aperaltados, cheios de compostura e autoridade. Polícias tipo guardas-florestais da floresta de cimento. Lenhadores tipo resineiros da floresta de cimento. Um primo (não era macaco) feliz, que já não via desde a última vez em que cantou ao sol o grande poema das árvores de cimento com telhados de vidro, em cujos ramos os humanos refugiam seus ninhos com mil cuidados.
Muitos outros…
E eu? Quem era eu?
Desde que se lembra, e até antes disso, deitou-se sempre com um irracional: o medo. Sabia que o medo era irracional, mas estava lá sempre. Às vezes parecia-lhe que o medo não estava e que em seu lugar se deitava a morte, naquele vazio inexplicável maior do que o medo, que ocupava mais de metade da cama. Quando isso acontecia, ficava acordado, alerta, pronto para fugir e gritar por socorro.
Do outro lado da rua, mesmo em frente, toda a noite, havia pessoas à espera que alguém pedisse socorro: era o quartel dos bombeiros. E, um pouco mais adiante, o posto da polícia.
Uma noite, pouco depois de, numa luta sempre desigual, ter sido vencido pelo cansaço e de, por fim, ter adormecido, acordou estremunhado com o toque da campainha. Eram cinco da manhã e estava escuro. Pelo intercomunicador perguntou «quem é?» e pelo vídeo-porteiro confirmou a presença de um vulto indistinto na escuridão. Uma voz arrastada, de alguém, homem ou mulher, com mais de oitenta anos, denunciava uma euforia perversa «ando há meio século à procura de um homem e tudo indica que, finalmente, o encontrei: esse homem és tu. Já posso viver com a consciência do dever cumprido».
Era alto e vergadiço como um salgueiro. Andava como se fosse gordo. Vestia-se como se o derradeiro inverno estivesse congelado no tempo. Falava mais depressa do que pensava e concluía sempre muito antes de chegar ao fim do raciocínio. Se fumava? Sim, fumava como uma chaminé e seguia o fumo até vê-lo… desaparecido. Nunca se tinha deitado com uma mulher. E sonhava escrever um poema.
No momento em que nasceu, sua mãe estava de pé e não o quis ver, alegando que estava morta. Foi um momento desumano, porque ela não morreu. A parteira compreendeu sem dificuldade as dores daquela mulher «também já fui assim!»-pensou, mas foi em vão que tentou compreender o choro do recém-nascido.
A agonia do Velha parecia interminável. Perguntava pelo Fernando Pessoa «onde estás Fernando? Ah, estás aqui. Estás parecido com uma fotografia que vem num livro, mas muito mais real. Tens meias brancas. Sempre achei que gostavas de meias tintas. Não sobra tempo para escrever. Passo a vida a viver e a sonhar. Talvez um dia me canse de viver e de sonhar e me entretenha a escrever. A escrever-te e a escrever-me. Se não morrer. Se no fim do sonho não estiver a morte». Dizia estas palavras num ritmo irregular e numa sequência algo obscura, aparentemente desconexas, mas ao reduzir a gravação a escrito, foi possível estabelecer, sem margem para dúvidas, a letra e o teor das últimas palavras que o Velha proferiu ainda em vida, como se já estivesse para lá de uma fronteira e o eco que se ouvia fosse numa língua tão desconhecida como o outro mundo.
No momento da morte, o Velha agonizava profundamente… equivocado. E toda a equipa liderada pelo médico Pedrinho se mantinha abismada num mutismo… de espanto. O Dr. Pedrinho soçobrava ao peso da memória de dezenas de moribundos, no leito de morte, como se quisessem despedir-se, olhando-o com estranheza, selando com o silêncio da morte palavras que teriam dito se o reconhecessem. Alguns fixavam-no e até pareciam acusá-lo de estarem a ser despedidos mas outros, nada disso.
Apesar da insuportável dor, não queria sequer tentar impedir que lhe viessem à memória as últimas palavras de uma criança de quatro anos, que tinha sido colhida por um comboio, quando tentava colocar uma pedra sobre o carril. Não fosse a demora em estabilizá-la na linha férrea e não teria escasseado o tempo para retirar-se em segurança, com as duas pernas a salvo e vitoriosa da ousadia.
Entrou no bloco operatório, na tarde de um domingo de festa. Por todo o lado, a subida à primeira divisão dos Convictos Futebol Clube era festejada por multidões embriagadas. Os médicos de urgência mal tiveram tempo para ouvi-la dizer, numa voz que os fez arrepiar «mamã, vamos brincar?».
Passados minutos, o corpo estava frio. O Dr. Pedrinho sentou-se no canto da sala, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cara entre as mãos. Por fim, assoou-se e, recompondo-se, perguntou à Dr.ª Vitória «está a pensar no que vamos dizer e no modo como vamos dizer aos pais? Eles estão lá fora… talvez com esperança». A Dr.ª Vitória acenou com a cabeça, afirmativamente.
A rádio local dedicou um programa especial à morte do Velha. O Amante de Catástrofes fez questão de prestar homenagem a esse homem de quem lhe disseram três coisas: que lhe chamavam Velha, que se apresentava como Alberto Caeiro e que era pastor de transístores. Abriu o programa com rajadas de metralhadora e, após um silêncio sepulcral, declarou, num tom declamatório «assalto e assassínio de um desconhecido».
Os dois repórteres, incumbidos de lhe trazerem notícias do Velha, foram as primeiras pessoas a ser informadas da sua morte, no hospital, onde se deslocaram para tentarem levá-lo ao estúdio para ser entrevistado.
Dois dias antes tê-lo-iam encontrado de perfeita saúde e teriam tido oportunidade de dar a conhecer um pouco da história da própria vida que ele fosse capaz de contar. Mas agora era tarde e ninguém poderia ajudá-los, nem com depoimentos. Por sua vez, as informações do hospital eram lacónicas. Até o nome que constava na ficha de internamento não era aquele pelo qual o Velha era conhecido. E diziam uma hora e uma data do falecimento, mas nenhuma referência ao nascimento, morada, naturalidade, ascendência…
Além disso, sabiam que tinha sido assaltado e agredido, depois das aulas à noite, a caminho de casa e que a polícia lavrou auto da ocorrência. As suas atenções, agora, estariam voltadas para a investigação e eventual descoberta do(s) autor(es) do(s) crime(s).
O quadro clínico do Velha agravara-se e não havia ninguém referenciado como familiar ou amigo a quem o hospital pudesse comunicar a situação. A última pessoa com quem ele tinha vivido falecera dois dias antes dele se despedir da Serra Alta e de, ao chegar a Pérolas Falsas, chorar de inconsolável tristeza. E já tinha passado perto de um ano.
Era a tia-avó Anja, abandonada à solidão, numa aldeia de mais de cem casebres vazios, de portas e janelas escancaradas, cada vez menos visitados pelos fantasmas da memória enferma ao ponto de a ensurdecer e cegar a maior parte do tempo, desde que se levantava até que adormecia.
Com o seu rebanho de transístores, o Velha distraía-se de a ver, àquela que o criara de pequeno, que não conheceu pai nem mãe, nem lhe disseram alguma vez se eram vivos.
Com os anos, ele cresceu e a tia, envelhecendo, deixou, pouco a pouco, de o reconhecer. O Velha não saberia dizer a idade com que ela, arrastando o pesado corpo, no inverno, se deslocava para onde houvesse sol e, no verão, para onde a água fresca cantasse na fonte.
E não sendo capaz de, por si só, regressar a casa era ele quem, incerto de ser ouvido, a guiava, falando todo o tempo do doloroso e lento percurso sobre calhaus rolados, certamente pré-históricos, até aos cinco tormentos que era subirem cinco degraus de granito da escada desmantelada da entrada. A tia-avó, sem poder comentar, gemia e chorava, amparada ao sobrinho-neto e ao cajado cujas marcas da passagem do tempo haviam sido já por este apagadas. Quando, finalmente, chegavam à cozinha ela esperava que ele pusesse na mesa algum alimento para debicarem.
Também foram assim os derradeiros momentos da vida dessa mulher de quem não se sabe se chegou a pensar que o mundo existia para lá da Serra Alta.
O Amante de Catástrofes, como era conhecido o director da rádio local, correu mundos e fundos para encontrar o Velha. Assim que soube do interesse do pastor por transístores, pela primeira vez, desde que se dedica a noticiar catástrofes, deixou de dormir por um motivo diferente, para poder pensar num programa de que o Velha fizesse parte. Antes, porém, era preciso encontrá-lo e convencê-lo a participar. Depois de cinco dias de buscas infrutíferas, só conseguiu saber que estava hospitalizado por ter sido assaltado e agredido, quando regressava das aulas no ensino nocturno. Entrou no estúdio, ainda de madrugada e, antes de ir para o ar, ordenou aos repórteres de serviço «desta vez suspendam as reportagens de catástrofes; com um pouco de sorte, haverá um dia sem que ocorra alguma, e tratem de encontrar o pastor alucinado por rádios. Procurem-no no hospital. Quero entrevistá-lo, se possível, em directo.» Um dos repórteres, impensadamente, retorquiu «mas, ó chefe, olhe que isso pode ser uma catástrofe!». Sem contemplações, o Amante de Catástrofes ripostou«Deixe-se de ironias e traga-me notícias desse homem».
O Velha mexeu-se. Estava a acordar da anestesia geral. O cirurgião que o operou inclinou-se para ver-lhe os olhos. A médica anestesista perguntou-lhe «está bem? Como se chama? Qual é o seu nome?». «Fernando Pessoa», respondeu. O cirurgião arregalou os olhos e abanou negativamente a cabeça. A anestesista insistiu na pergunta «Como? Qual é o seu nome?». «Álvaro de Campos», voltou a responder. Desta vez ambos os médicos esboçaram um sorriso. E consultaram a ficha clínica. Ovelha era o nome que lá constava. «Não se levante, não se esforce. Está tudo bem, não está?».
O Dr. Pedrinho olhou para a Drª Água, tirou os óculos com uma das mãos e, com a outra, massajou suavemente os olhos cansados. «Não se esforce, deixe-se estar em repouso.»
O Velha pôs-se a falar com muita lentidão e alguma dificuldade. Os médicos ficaram à escuta. «Sobe ao pódio dos teus pés/Que o prémio te sinta /Mesmo que não sejas vencedor/Te diga que o és/Canta o hino /Que aprenderes/A olhar para longe /Do que fores/Capaz/Que o silêncio/No fim /Seja murmúrio/De paz.»
Depois das aulas, no regresso a casa, perdeu-se. Estava habituado a orientar-se pelas estrelas e, nessa noite, não havia estrelas. Os candeeiros da iluminação pública desorientaram-no. Deu voltas e voltas sem saber por onde e ao passar pela terceira vez na mesma ponte sobre um riacho convenceu-se de que devia seguir em frente, na direcção do pio dos mochos. Quando parou de andar, vencido pelo cansaço, ao primeiro sol da manhã, viu que o lugar desconhecido em que se encontrava era o fim do mundo.
Incrível! – exclamou.
Uma regra de oiro dos montes penhascosos em que foi pastor durante vinte anos iluminou-lhe a mente «diante de um precipício, andar para trás é a única forma de andar para a frente». Mas não sentia vontade de retroceder.
Esses momentos ficariam na sua memória como os do primeiro encontro com aquela que viria a ser sua companheira inseparável até ao último dia de vida: a Insónia.
A sombra de uma árvore enorme que tinha sido arrancada pela mão de um gigante poderoso era um convite a que se abrigasse do sol para dormir.
Deteve-se diante daquele raizeiro ao ar, maior do que a casa dos sete anões. Ao peso das pálpebras, fechou os olhos sem resistência, escutando rugidos rotundos que lhe lembravam trovões, mas eram as vagas do mar. Do mar que ele não via e nunca vira. A insónia não o largava. Quem dera rebanhos para contar.
O primeiro texto que subscreveu como Alberto Caeiro levantou um problema ao professor Ruga. O Velha não compreendia onde estava o problema. Não estava a plagiar. Também não estava a usurpar a identidade de ninguém. Mas o professor não aceitou que ele se fizesse passar por um autor consagrado. Como é que alguém ousava atribuir os seus escritos a uma celebridade das letras?
Para o Velha não havia problema, porque as coisas não eram assim. Ele não atribuía a autoria dos seus escritos ao Alberto Caeiro que, aliás, nunca escreveu nada. Ele atribuía a autoria dos seus escritos a si próprio, verdadeiro Alberto Caeiro. De carne e osso, com larga experiência de pastoreio.
Cão tomara partido pelo Velha e dizia de cor os seguintes versos do poema “Observo”:
Nem ele próprio sabe quando é que percebeu a origem da alcunha o Velha. Mas foi em casa que, carinhosamente, começaram a tratá-lo assim. Nas próprias palavras, quando nasceu, já tinha aspecto de velha. À medida que foi crescendo, esse aspecto acentuou-se e, como ele não dava por outro nome, porque nunca o baptizaram e não saberia dizer outro nome por que fosse tratado ou conhecido, um colega da escola para adultos, zarolho e corcunda, identificava-o por Velha. E Velha continuou. O zarolho era a sua companhia preferida que o tratava assim, não por despeito, mas por genuína simpatia.
Por sua vez, tratava as pessoas por alcunhas que lhes atribuía por associá-las a animais, a coisas e a outras pessoas. Ao corcunda, que se tornou seu amigo, chamava Cão, honrando-o assim com a associação ao notável navegador português que explorou o rio Congo. Apesar de ser zarolho, nunca lhe ocorreu cognominá-lo de Camões. O Cão, como ele lhe chamava, não tinha nada que o pudesse associar ao grande vate, a não ser a deficiência ocular. A associação pelo mais, não pelo menos, anuiu o Velha consigo próprio.
Ao Antunes, um colega sisudo e pouco sociável, que ficava no fundo da sala de aula e se torturava ao computador, com jogos de justas medievais, enquanto fingia trabalhar nas fichas que o professor distribuía, o Velha chamava Lobo Sem Alcateia.
A sua descoberta gloriosa, no entanto, veio a ser que o Alberto Caeiro era ele e que Fernando Pessoa era um dos seus heterónimos.
Foi o começo de uma nova era.
Até ao dia em que foi à cidade, só tinha convivido com dez pessoas entre família e vizinhos. Habituara-se a falar e a cantarolar sozinho, para os animais, para as plantas e para as coisas. Lembrava-se de quando se mirou no espelho da água do rio pela primeira vez. Teve a sensação nítida de que se tratava de outra pessoa e, mesmo sozinho, sentia-se como se estivesse acompanhado por uma espécie de sombra.
Na cidade, tudo era intensamente novidade. Os seus olhos e o seu cérebro não tinham memória de nada do que viam. Anos mais tarde ainda estaria refém da memória desse encontro fabuloso com a cidade, dessa experiência tão marcante. Via as pessoas a entrar e a sair das casas e das lojas e imitava-as. Sorria para elas como se as conhecesse e achava graça às expressões delas. Entrou num café e não sabia o que fazer nem o que pedir. Era de tal modo o centro das atenções que sentiu algo parecido com felicidade, sentimento que ele praticamente nunca havia experimentado. Em nenhum rosto viu sinais de hostilidade ou desdém. E quando se riam dele, então é que ele gostava. E ria também. Com dificuldade, porque não tinha rido mais de duas vezes na vida. Uma, quando ouviu pela primeira vez a rádio. Outra, quando um missionário passou pela aldeia e o ensinou a fazer o sinal da cruz.
Um dia teve uma ideia que o fez saltar. Deu um grito e as ovelhas pararam de mastigar. Se estivesse numa grande cidade teria um rebanho imenso de transístores. Quando teve de ir ao médico, ao passar à porta dos estabelecimentos comerciais, que tinham, quase todos, um rádio a tocar, ficou encantado. Achou tanta graça à cidade que perdeu o gosto de viver no monte. Assim que saiu do consultório com o diagnóstico de desnutrição crónica, em vez de ir comer, que já o não fazia há mais de cinco horas, deixou-se perder pelas ruas da cidade de Pérolas Falsas enquanto pensava que todas as pérolas são falsas.
O Velha apresentava-se sempre como Alberto Caeiro e dizia ser pastor de transístores. Para muitas pessoas isso correspondia ao anúncio de uma seita esotérica, religiosa ou política. Mas não era. O Velha não era pastor de uma seita, era mesmo pastor de rebanhos de ovelhas e de cabras. Com o tempo foi-se tornando também pastor de transístores e, pouco a pouco, declarava-se a si próprio como pastor de transístores que deixara de ser pastor de gado. Na infância foi pastor de gado. Nunca pertenceu a uma tribo. Aprendeu a viver sozinho e a lidar sozinho com os seus medos. Mais tarde frequentou a escola para adultos e descobriu que era Alberto Caeiro e que tinha mais que um heterónimo, sendo um deles Fernando Pessoa. Mas a maior descoberta da sua vida foi o transístor. Desde o dia em que o descobriu que passou a fazer-se acompanhar dele para os montes com os rebanhos. Assim que pôde comprou mais alguns e levava-os todos para os sintonizar em estações diferentes. Enquanto as ovelhas pasciam, colocava os transístores em posições estratégicas no solo e ouvia de tudo em simultâneo. Se mais estações de rádio houvesse mais transístores teria comprado.
Não me dêem o que não faz falta
A tragédia menos trágica que a tragédia
De ser testemunha do mal
Se não fosse mais trágico pensar que sentir
De um mundo belo por natureza
O odioso da desumanidade
Enquanto puder
Que a vida é breve
Mas o tempo não
Amarei os pacíficos.
Está sol num grande largo povoado de sombras um pregador sob uma árvore adverte em nome do bem como um sol que faz desaparecer sombras no canto de lá um propagandista reclama liberdade como um sol que faz sombras.
Aceito o teu convite para ir a tua casa
Tomar café
Mas como estarás vestida?
E não aparecerá ninguém
(a cantar numa voz de ópera?)
Já te vi subir o pano
Como o suave sol de Maio
Sobe a colina
Faz-me ver grandes nuvens brancas
E temer adormecer
Sem o desejar.
Se tivesses uma morada ou telefone
Que eu soubesse
Um telemóvel ou e-mail que
Provavelmente tens
É improvável que escrevesse esta carta sem endereço
Nem sequer a escreveria
Faço-o porque não te conheço
E sou fiel
Ao sonho e mais profundo desejo
Sem trair o anjo do meu cortejo
E sem temer
Vir-me a arrepender
Pelo menos enquanto não te encontrar
Se tivesse dúvidas sobre o ridículo das cartas de amor
Elas cessariam com esta
Não por ser simples carta de amor
Mas por ser ao amor desconhecido
Que confiança pode merecer-te alguém que viveu
Oitenta anos sem te ter tido
Ou que o afirma
Mais indigno de ti
Quem diz que amou sem te conhecer
Ou quem não amou à espera que isso acontecesse
Mas tu não vieste?
Se eu soubesse não diria
Nada que não seja
Poesia
Nada que não saibas
Que eu não sabia
Não direi nada
Sei
Extenso dia
Até onde alcança
A vista
A fantasia
A alma
Que vê ausências
Onde há
As dela
As outras não
Direi por dizer
Pelo prazer
De ouvir-me
E de crer
Que a palavra não faz
Falta
Em vão.
Sem falsas modéstias, parece-me um trabalho pioneiro a ser seguido por quem não desfaz e não se desfaz dos escritos na Net, dedicando imensas e boas horas à comunicação e à aprendizagem online.
A luz fraca não deixava ver a cor das flores O mofo fantasma da rua da morgue Entranhado nas asas de bronze Do anjo triste como o horizonte Perguntava sem ironia Que andava ali a fazer Enamorado da alegria Enamorado triste Sem esperança Abraçado a uma puta Que fazia acreditar Que ainda havia Mistérios a desvendar.
Nem sei por que vou por aí Chove e tenho sono Estou doente Não busco nada Nem luz nem saúde Nem significado Devia estar em casa E estou na rua Devia estar vivo E estou a morrer A passos largos Para o teatro na escuridão Devia regressar Retroceder Mas não o faço Nunca o fiz Como nunca dei valor A ser feliz Passo pelos monumentos E não os vejo Pelos sítios onde havia monumentos E não vejo que os tiraram Pela casa onde moravas E não vejo que morreste.
O que é uma mulher bonita? Toda a gente sabe Mas quem o sabe dizer? Não és completamente real E do real A minha ilusão é imperfeita Reconheço em ti A parte que devasso Até ver que o faço Sob suspeita Por te ter aqui.
Trazes nas mãos Campos de flores Sem fim De leitura repreendida Séculos de dissabores Do saber da vida Corpo sonhado De amor mais nu Que um livro ignorado Que sonho és tu?
Sobre as águas tristes do lago O pálido clarão da tarde de Inverno Lembra-me a mais triste de todas Algures na Primavera Ou no Verão Ou no inferno Num pano de fundo viscoso E macerado O cheiro a pólvora queimada No ar estagnado E o poeta Como uma esfinge morto De um único pensamento estava absorto Com a força do vento.
Há uma terra no coração do cantor Que cobre o cadáver da sua amada E eu escrevo duas palavras de dor No chão da história negada Dor que já ninguém sente Pois que é só imaginada Dor ainda mais dolente Porque já não diz mais nada.
Não há poesia sob as telhas Nem na multidão de bêbados Que caminha debaixo do céu Nas ruas estreitas E bafientas Com muitas esquinas E bares baratos Por onde me arrastei Como um eremita Com o dobro das patas De um caranguejo E metade da sua graça Não há poesia em nenhum pensamento À hora a que me deito para morrer Sentindo que sobrevivi a tudo.
Sobe ao pódio dos teus pés Que o prémio te sinta Mesmo que não sejas vencedor Te diga que o és Canta o hino Que aprenderes A olhar para longe Do que fores Capaz Que o silêncio No fim Seja murmúrio De paz.
Desiste de procurar-me Nem eu sei Onde me perdi Nas tardes de Verão Onde perdi o livro Que andava a escrever Sobre as tardes de Verão Em que me perdi Antes de te encontrar Se fosse numa ilha Era fácil partir do princípio De que só podia estar lá Mas foi num continente Que não existe E nisto nunca irás acreditar.
Esta certeza é efémera como todos os brilhos Como as chamas arrefecem nas órbitas De monstros venenasas Ruínas de castelos que já foram no ar Sobranceiros a campos Onde são matagais Cemitérios onde adros já foram festivos Esta tristeza desmemoriada do que foi alegria Ao compasso de todas as músicas De todas as marchas não reeditadas E dos silêncios sobrevindos De todos os sinos De todos os tempos Tratados de filosofia À espera De um cérebro que os pense Até à próxima explosão do Universo Que não precisa da ciência Nem de contexto histórico Como a minha morte Para acontecer Sou fútil e distraído Como as estrelas brilham Como um ébrio enquanto não adormece Trato de banalidades Porque já é aquilo que há-de vir a ser Eu já nasci morto.
Há sombras em que o carmim aos lábios aflora e desnuda o sorriso dela e me insinua aquele lanço de escada a subir para os alfarrábios sombras que a vestem entre as pernas de uma ideia completamente iluminada por fora da roupa dela e que brilha nos cabelos em que esconde o milagre dos seus olhos.
Fugi das luzes dos espaços amplos Escondi-me das vistas De sacerdotes e juízes E da curiosidade Do constrangimento Das lendas de amor Para te olhar com a pobreza Da minha solidão E falar-te do prazer Como se fosse a mentira Do amor Do que tarda mais E não sabemos Se haverá Algo mais Que o calor do corpo Que temos para dar.