sexta-feira, 1 de maio de 2015
Como nunca
O mais difícil
são as distâncias
de impossíveis palavras
no lugar do que é dito
escutar fonemas
como outras águas
brotando
de um invólucro fissurado
ver que há o fora das coisas
e que não é possível
falar das coisas por dentro
por não terem lá nada
ou nada mais
que o nosso pensamento
de ausências
difíceis.
sábado, 28 de março de 2015
O poema
Independentemente dos significados, que em poesia pode ser o menos importante ou o menos interessante, o poema toma o leitor por alguém que se vê, inopinadamente, diante de verdades e cenários que se lhe escondiam e que ele, em sonhos, sempre soube que existiam.
segunda-feira, 2 de março de 2015
Olhos de ver
Não vou entregar-me
à tristeza
ela é asa
cansada
sobre o mar
seduz
a certeza do vento
sopra
um mistério
empedernido
não vou sequer escutar
não vou ter o prazer
da música
dos abismos
vou resistir
ao apelo da tristeza
como quem resiste
ao adeus
e fica triste.
à tristeza
ela é asa
cansada
sobre o mar
seduz
a certeza do vento
sopra
um mistério
empedernido
não vou sequer escutar
não vou ter o prazer
da música
dos abismos
vou resistir
ao apelo da tristeza
como quem resiste
ao adeus
e fica triste.
Carlos Ricardo Soares
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Só
Podia ser
um laivo
do que nasce
só
a palavra
como o sol
nascente
só
a memória
confusa
iluminasse
o presente
podia ser
um laivo
de saudade.
do que nasce
só
a palavra
como o sol
nascente
só
a memória
confusa
iluminasse
o presente
podia ser
um laivo
de saudade.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Ficar no poema
Dói não poder
ficar no poema
se fica num tempo
inexplicável
como uma paisagem
se nos depara
nos prende
numa viagem
que ainda não é de regresso.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Mel e Sal
Mel
não dorme
Sal acorda
Mel faz um balanço da sua vida
tem a percepção de que viveu
obcecada
com sexo comida bebida guloseimas
esconderijos sombras e
penumbras
mais do que ações e intervenções sociais
como se tivesse vivido dentro
de um filme
de uma narrativa destituída de outros valores que não fossem o
afecto
o erotismo a sensualidade a gula
enfim todos os pecados
tudo o
mais que saísse disso lhe parecera sempre aborrecido
e insuportável
entregava-se de preferência a devaneios sem fim
e procurava livros que lhe
alimentassem essa espécie de vício
passou por todas as dependências de quem
busca
o prazer antes de tudo
e nunca se libertou de nenhuma
nem quando corria
perigo de vida
e o médico alertava
de D. Quixote
Mel nunca teria a alucinação
do cavaleiro corajoso e valoroso
considerava essa faceta desinteressante
Mel
não tinha nenhuma espécie de megalomania
e nunca aspirara a outra grandeza
que
não fosse todas as formas de prazer
com o tempo
tornou-se colecionadora de
receitas de prazer
e se dedicava algum tempo a isso
e a hierarquizá-las
era em
vista do prazer
Mel não sentia prazer nela própria
nunca pensaria nem diria
como o poeta
“sinto-me confortável e feliz comigo próprio”
a felicidade e o
prazer eram exteriores
estavam em coisas e pessoas
dentro dela havia a
carência
o desejo a fome
a paixão o vício
e sentia raiva
sempre sentiu por haver tantos interditos
tantas proibições
tantos limites
tantos
entraves
tantas obstruções
Mel achava que a cultura era uma tentativa de dar
espaço a algo
mais do que regras de conduta e objetivos económicos.
sábado, 13 de dezembro de 2014
Porque o amor deslumbra
Qualquer hora
tem eternidade
dentro
do indistinto dia
da noite
indistinta
tem esfinges que admito
serem
da minha idolatria
te sinto
na vastidão do sempre
aonde a memória
se perde
algum mar
começa
naquela lua
das palavras a nos esperar
ou nós a elas
tudo é
sem janelas
e nós o lugar.
tem eternidade
dentro
do indistinto dia
da noite
indistinta
tem esfinges que admito
serem
da minha idolatria
te sinto
na vastidão do sempre
aonde a memória
se perde
algum mar
começa
naquela lua
das palavras a nos esperar
ou nós a elas
tudo é
sem janelas
e nós o lugar.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Foi tanto o prazer
Foi tanto o prazer
foi tanta a paz
foi tanta a promessa
e a plenitude
nessa única tarde
as coisas
tinham memória
de sermos mais
que a verdade
à nossa volta
a poesia
do que éramos
tudo sentia
o que não podíamos.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
As línguas do amor
Por favor
Fala-me todas as línguas
Do amor
Que há-de haver alguma
Que eu compreenda
Se me falares só uma
Talvez a não entenda
Se houver uma escola
De línguas do amor
Ou de amor
Ou ao menos de uma das línguas
Do amor
Eu quero aprender
O amor fala todas as línguas
Que nós desconhecemos.
sábado, 15 de novembro de 2014
Inverno na praia
Sempre me dói a miséria
Dos mastins abandonados
Mais do que tristes
Os seus olhares envergonhados
As asas de chávenas
Da Vista Alegre
Partidas em bocados
Nas escadas à porta
Do museu dos esmoucados
O porte e o pêlo de cão
De uma disciplina fria
De prisão ao pescoço
À coada luz do dia
Desejo não lhes lembre valentia
Tristes matilhas de colecção
De joalharia
Que ninguém quer roubar
Estômago não teria
Para os inventar
Gelam-me os ossos
Fazem-me chorar
E são apenas podengos
Que temem ladrar
Melancólicos famintos
Hesitantes
Preferem ficar
Distantes
E passar por
Assaltantes
Mas lixo
São
Os seus diamantes.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Se não houvesse ruas
Se não houvesse ruas
haveria caminhos
senão
o mar à volta
o deserto
a noite cerrada
o chão coberto
de neve
o sol encoberto
um labirinto
se não houvesse casas
haveria grutas
bosques
florestas
senão
nem no dia
nem na noite
haveria frestas
por onde
os nossos olhos
se aventurassem
se não houvesse
braços
se não houvesse alma
se não houvesse abraços.
sábado, 1 de novembro de 2014
O que fazem mortos
Sobre o vale nada
ecoa
uma distância
os horizontes
uma luz
antiga
como a espera
um crepúsculo
de recolher
os gados derradeiros
Camões
é primavera
está a chover
uma chuva que a nós
visita do que era
eternidade que é
agora
sabemos que há mortos
por todo o lado
mais vivos
do que a própria saudade
e vivos sem liberdade
mais mortos
do que era de esperar
neste tempo
de venalidade
atroz
que rouba sonhos
como quem rouba ouro
que não derrete
e o que pode acontecer
é o que mais promete.
Vi ou vi ora viu ou viu
O privilégio que deve a Deus
recordar o bom que viveu e imaginou
enquanto desce ao poço do inferno
da restrita visão
da lanterna que treme
luz
na escuridão
é privilégio
e dom
ouvir um rio que não
se vê
e muito bem conheço
sentir um frio
que eu próprio arrefeço
pensar que não mudei
o mundo
para melhor
do que mereço
se fez de mim o que sou
não me conheço.
sábado, 25 de outubro de 2014
Ave da alegria
Essa ave será
rara
um dia
que ninguém diz
nas estórias
que a fantasia
à mesa da taberna
ou bar
ou como lhe chamam
ave da alegria
de todos os caçadores
da morte
nos sorrirá
e nós
morcões continuaremos.
sábado, 18 de outubro de 2014
A minha guitarra
A minha guitarra vai sempre
comigo
não se faz rogadacomigo
toco-lhe o umbigo
e ela me agarra
transfigurada
de esperança
é feita
de dor
cantada
cantada
A minha guitarra leva-me
pela mão
com que lhe toco
pela mão
com que lhe toco
no coração
se quero farra
se quero farra
se a provoco
ela é perfeita
na reacção
ela é perfeita
na reacção
Mas se estou triste
ela me solta
e me canta
e me escolta
e resiste
e pinta a manta
de tons profundos
nunca está cansada
a minha guitarra.
ela me solta
e me canta
e me escolta
e resiste
e pinta a manta
de tons profundos
nunca está cansada
a minha guitarra.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
O poeta declara por sua honra
O poeta declara por sua honra
Que não sabe
Onde ouvirás sinos de palavra
Se nos sulcos de mãos limpas
Ou se é pouco ou nada estares
Disponível para azares
Se não os procurares
Que por envergares traje
E barrete napoleónicos
Ainda menos figura fazes
Do que uma cavalgadura
Que quem espera ser servido
Só conhecerá os manjares
Do que é requerido
Se o esperar é muito mais
Que o desdenhar
Incomparável é procurar
Que ao sábio se consinta
Invocar cepticismo
E que aos demais
A ignorância
Seja tolerada…
… … … … …
sábado, 27 de setembro de 2014
sábado, 20 de setembro de 2014
Não sei se me compreendes
Se compreendesses o que eu sinto
Quando a imperatriz despe o único manto
Que a resguardava da história de amor
Que veio a acontecer
No maior dos segredos
Apenas partilhada com imenso prazer
Com os pássaros dos jardins
Que a imitavam
E propalavam alegremente
Em deslumbrantes gorjeios…
Se não me compreendes
Não me compreendas
Não sei se me compreendes.
domingo, 7 de setembro de 2014
Poema adiado
A minha vida
tem sido uma
tentativa
de poema
que dissipe o que
houver
entre o olhar
e a cegueira
não transforme
ao ser
poema seja
inteligência
de quem não sabe
e não mente
seja
audível
para surdos
ao que gera silêncios
por onde o pensamento
se evade
o corpo
alguma vez
triunfe
do inenarrável
das prisões
de palavras
como a aurora
se erga
e ilumine
este vasto cemitério.
sábado, 23 de agosto de 2014
Escrevo este poema porque
Escrevo este poema
porque
Estou com um livro na
mão
Passei o dia a ler
notícias
e a pensar
Tenho passado
metade da vida a ler
notícias
e outra metade a
olhar
para o mundo
que não pára
de me surpreender
Escrevo este poema
porque
o tempo que não
sobrou
passei-o
a viver
se é que isso importa
e se não importa
escusado será dizer.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Desçamos à terra
Que o vão seja a
forma
de um apenas
e haja forma de o ser
manter raízes
que a dor de saber
que nos condenas
oh, Deus! É uma dor
por aquilo que não
dizes.
Não busco canto nem
dia perfeito
não busco nada
no que aparece
a maior parte
é este meu defeito
de acreditar
naquilo que acontece.
Como se a própria
vida
me traísse
embora eu pense
que o traidor sou eu
tenho pena por tudo
o que não disse
melancolia
pelo que morreu.
Estranha esta alegria
de estar vivo
estranho mundo
sob estranho céu
a minha vida
ganha algum sentido
se penso no sentido
que perdeu.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Palácios confusos
Nunca os mesmos
cada vez que avistaram
meus olhos
de longe
na penumbra de anos
nas brumas de décadas
ali estão
e ali ficam
palácios confusos edifícios
memórias que me elevam
a uma transparência
calma
sem vícios.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
É por seres como és
É por seres como és
que te sinto
a imensidão
do deserto
e o instinto
nunca estive tão perto
de um labirinto
aberto
tão certo
que acredito
nos teus olhos
de um escuro infinito.
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Debruçada sobre o muro
Debruçada sobre o muro
Como uma multidão sobre a ponte
Mas sem ninguém ao pé
Com as ervas ouvindo
A tua respiração
Como se fosse um vento
Soprado da tua tempestade interior
Quarenta anos se debruçam
A chorar
Enquanto o sol canta nas asas
Da primavera à tua volta
Porque tu não queres ter a força
De enfrentar a lágrima
Com medo de que a tua vitória
Seja sobre ti mesma
O que de certo modo já acontece
Quando choras
Só para ti
Debruçada sobre a construção
Que te ampara
Entre dois lados
De um único mundo
Que o sol não conhece outro.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Ninguém sabe morrer
Os velhos e
velhinhas
a gente sem abrigo
que pede
pelas alminhas
vive
como castigo
e
dos colos carregados
das lantejoulas
dos cenhos carregados
das angústias
dos peões
da soberba pachorra
de esperar
remédio
da virtude paciência
e
há sempre
muito ruído
muito brilho
muita cor
ladrões
à paisana
e polícias
nas esquinas
prostituição
a disputar a
sensualidade
que há em tudo
e
a despesa de viver
o pecado
fechar os olhos
para ignorar
a bomba
que vai explodir
e
tanto filho da mãe
que anda a fugir
sem descanso
que não suporta a luz
nem a própria sombra
tanta faca
escondida
deve haver
além de mulheres
algures
ilícitas de tão
carnais
amores imperfeitos
de tão legais
e
o livro da história
que não cessa
nem há tempo para ler
até numa
biblioteca
ninguém sabe morrer.
ninguém sabe morrer.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Há coisas que queremos dizer
Há coisas que tu
queres dizer
E não sabes como
Que eu quero
Mas não sou capaz
Que não dizemos
E tanto dói calar
Quanto o desejo
De falar.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Frustrações de um sonhador
Com sol na vidraça
Da aurora baça
A horas tardias da tarde
E da noite
Escrevo palavras e frases
Que aspiram a ser
Textos
Por mais que os torça
De pequeninos
Como os pepinos
Não passam disso
Frustrações de um sonhador
Que envelhece
A ver
O que acontece.
terça-feira, 1 de julho de 2014
Uma voz que se ergue
Uma voz que se ergue
Na noite cerrada
Mais doce e mais leve
Que um grama de nada
E tão bem a ouço
À voz amada
Tão bem encanta
A madrugada
Tão bem se estende
Para o dia
Mais sede e mais fome
Que a alegria
Chama
Sabe o meu nome
Arde
E não está queimada
Mais cedo e mais tarde
Que o tempo
Cresce
E não foi plantada.
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Venenasas
Esta certeza é efémera como todos os brilhos
Como as chamas arrefecem nas órbitas
De monstros venenasas
Ruínas de castelos que já foram no ar
Sobranceiros a campos
Onde são matagais
Cemitérios onde adros já foram festivos
Esta tristeza desmemoriada do que foi alegria
Ao compasso de todas as músicas
De todas as marchas não reeditadas
E dos silêncios sobrevindos
De todos os sinos
De todos os tempos
Tratados de filosofia
À espera
De um cérebro que os pense
Até à próxima explosão do Universo
Que não precisa da ciência
Nem de contexto histórico
Como a minha morte
Para acontecer
Sou fútil e distraído
Como as estrelas brilham
Como um ébrio enquanto não adormece
Trato de banalidades
Porque já é aquilo que há-de vir a ser
Eu já nasci morto.
domingo, 15 de junho de 2014
Mas o tempo passou
Desta vez lembrei-me do cavalo
De um tempo que não passava
Isso sim era tempo
Eu não temia
Aventurava
E cada noite
E cada dia
Mais gostava
Do meu cavalo
Que pedi aos saltimbancos
E mo deram
Ou sem que eu saiba
Mo compraram
Na feira mais bonita
E mais saudosa
Em que estiveram
As pessoas menos sorumbáticas
Da história
Mas o tempo passou
E o meu cavalo
Não gostou
E morreu.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Vida
O esquecimento foi-se apoderando
Da vida como um rosto bom
Que a tornava mais leve
E mais tranquila
Como uma água que lava as mãos
Ou uma nuvem que protege do sol
Dia após dia ano após ano
Desligou-me de muitas coisas
Enquanto me ligava a outras
Foi-me tornando diferente
Em parte com o meu consentimento
Foi-me despojando de uma narrativa
Que era uma sucessão de partidas
Com abandonos e despedidas
Algumas por minha vontade
Outras sem nada poder fazer
Sempre preso por algum dever
E muito por necessidade
Andei de terra em terra
A esquecer
E a matar saudades
De outro tanto
Que o esquecimento não varreu
E que o passar dos anos avivou
Dando à minha vida
Algum encanto
Até aos momentos mais caóticos
Algum sentido
Que parecia não ter
Esqueci e fui esquecido
Num percurso em que
Muitas vezes não estive acompanhado
Imaginei o bom que é amar
E ser amado
Desejei imensas coisas
Que não tive
E temi muitas outras
Que não aconteceram
Amei com ímpetos de mar
Rompendo diques
Movendo montanhas
Com fervor
Esqueci os ódios
Mas não esqueci o amor.
domingo, 8 de junho de 2014
Arcaz do adro
Se deparares com o arcaz granítico do adro
Sem decoração nos laterais mas com epígrafe
Numa das quatro águas da tampa lisa hexagonal
E abrires as gavetas pesadas do pensamento
Ao espaço profundamente sombrio
De quinhentos ou mais invernos de vazio
E aí encontrares sentimentais estranhezas
Resguardadas de olhares superficiais
Pedras manuscritas por pedreiros profetas
Com delicadezas de cartas de amor
A tantas Ineses como a do Pedro Justiceiro
Rainhas do amor
Mortas primeiro...
Isso é um sarcófago.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
A ampulheta e o burro
Asinino tem coisas mirabolantes
De deixar o diabo sem esperança
De o fazer chegar aonde ele quer
Asinino não se faz desentendido
Ele não entende porque não quer
Mas deixa-se fascinar
Da forma mais imprevisível
E sem perceber
Anula todos os efeitos
Do que observa
Deixando o diabo a pensar
«Que é que o faz então observar?»
O diabo não tira o olho da ampulheta
E espera que a areia acabe numa âmbula
Para a virar ao contrário
E assim continuar a confirmar
A sua crença na medição do tempo
Asinino vê a areia a passar
E não espera nada
Fica a olhar
Quando a areia acaba
É ele que se vira ao contrário
E como a areia continua parada
Pára o calendário.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Dá-se o caso
Pequeno almoço com janelas
Para um quadro
Com milhares de anos
É assim que pensas
É assim que dizes
O momento
A mulher ao lado
Está doente
E o homem ao fundo
Está a escrever no guardanapo
Para o outro mundo
Já se faz tarde
E temos pela frente
Um dia para visitar museus
Dormimos pouco
Mas estou contente
Tu fazes-me sentir vivo
Num mundo de memórias
De imensas coisas mortas
Fazes-me sonhar
E não devia ficar triste…
Carlos Ricardo Soares
domingo, 1 de junho de 2014
Como é belo o teu dizer
Como é belo saber ver
Do lugar onde cheguei
Do luar que acreditei
Do deitar tudo a perder
Do não sei pra onde vou
Como é belo compreender
Que o tempo nunca parou
Nas rosas que vi nascer
No vaso do nosso amor
Como é belo saber ver
Que a vida lança raízes
No solo estéril da dor
Como é belo ouvir dizer
As palavras que me dizes.
sábado, 24 de maio de 2014
Escrever poemas
Escrever poemas
enquanto
morres
é um acto triste
sobre o que será
a minha vida
escrever poemas
enquanto
vives
é um acto de libertinagem
despedida
enfim
escrever poemas
não tem saída.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Colocar o tempo numa moldura
Deixo passar o tempo e digo-o
Como se tivesse o poder
De o deixar em herança
De o fazer parar numa moldura
Como foto de dança
De vénus infame
Nos meus desertos
Em tons de ferrugem
De vitral de uma ala
Dos arquivos de uma catedral
No fundo do mar
Na paz pesada
Que ensurdece
Após S.O.S.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Não há tempo a perder
Nem tudo o que dissemos
Se desvaneceu
Memórias de nós
Que ninguém escreveu
Encantam a noite
Da flor que te ofereço
Quando ainda há tudo
Para dizer
Não há tempo
A perder.
terça-feira, 13 de maio de 2014
Achar-te bonita
Achar-te bonita é tudo o que importa
Mesmo que ache feio
Tudo à volta
Mais do que receio
Nada tem de louco
Mas enlouqueço
Por achar tanto
E tudo ser tão pouco
A poesia
A vida
A pena do que perdi
E este desejo de ti.
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