quinta-feira, 8 de maio de 2014
Sinto-me feliz
Sinto-me feliz
Por não encontrar
Palavras
Desnecessárias
Socorro
Para as vulgares certezas
Por acreditar
Que é belo o dia
Que como fruto imperecível
Colho
De tempos que excedem
Todas as fronteiras
De que há
Memória
Feliz
Porque
Tenho ódios e amores
Abomino
Piratas
E todos os terroristas
No auge da batalha sinto-me
Feliz
Mesmo temendo perder
A vida
Admiro os magnânimos.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Canção do acaso
Depois de partir
Por que é que fiquei
Por acaso não sei (bis)
Depois de falar
Por que é que calei
Por acaso não sei (bis)
Depois de sorrir
Por que é que chorei
Por acaso não sei (bis)
Depois de te amar
Por que é que odiei
Por acaso não sei (bis)
Depois de esquecer
Por que é que lembrei
Por acaso não sei (bis)
Depois de morrer
Por que ressuscitei
Por acaso não sei (bis)
Depois de sonhar
Por que é que acordei
Por acaso não sei (bis)
Depois de vencer
Por que é que falhei
Por acaso não sei (bis)
Depois de estar
Por que me ausentei
Por acaso não sei (bis)
Depois de escrever
Por que é que rasguei
Por acaso não sei (bis)
Depois de me abrir
Por que me fechei
Por acaso não sei (bis)
Depois de receber
Por que é que não dei
Por acaso não sei (bis)
Depois de saber
Por que é que errei
Por acaso não sei (bis)
Depois de lembrar
Por que é que ignorei
Por acaso não sei (bis)
Depois de cantar
Por que desanimei
Por acaso não sei (bis)
Depois de pensar
Por que é que cansei
Por acaso não sei (bis)
Depois de correr
Por que é que parei
Por acaso não sei (bis)
Depois de esperar
Não foi por acaso
Que te encontrei.
domingo, 4 de maio de 2014
O livro de todo o conhecimento I
O dia de hoje foi normal até há pouco, quando decidi sentar-me para escrever sobre o dia de hoje. Ainda sem saber porquê, comecei logo a ter a percepção de que o dia de hoje foi, afinal, um dia extraordinário. Levantei-me de madrugada com a história do livro de todo o conhecimento na cabeça mas só escrevi o título porque as ideias não desenvolviam. Voltei para a cama e não dormi a pensar que tinha de levantar-me antes das oito, para a abertura da bolsa. Às oito já estava em frente do computador, como venho fazendo há anos. Nesta altura, a história do livro de todo o conhecimento parecia-me ainda mais difícil de escrever, como se tivesse sido um sonho. Sabem como é difícil, para não dizer impossível, passar os sonhos para o papel?! Quanto à bolsa, mais um dia à espera da abertura de Wall Street! Adiante. Banho. Aula de Economia sobre sociedade de consumo, laxismo, hedonismo e os males que podem advir para o mundo. “Quando as batalhas terminam aparecem os valentes”…
Apetecia-me tanto comer tripas à moda do Porto regadas com uma garrafa de tinto de 37,5cl…
Mas estava à minha espera o rei, desculpem, não era o rei, era a princesa, bem, vocês não conhecem, linda de entontecer, envergando diáfanos atributos, que me concederia o privilégio de a fazer feliz entre o período do almoço e o do lanche.
Cheguei atrasado. Não previra que uma fila de carros embandeirados retardasse o trânsito com euforias altifalantes porque é tempo de campanha eleitoral e “Viva a República”.
Logo constatei que um indivíduo, vestido de branco, de pé, num estrado colocado na rotunda, de megafone numa mão e uma bandeira branca na outra, tinha feito parar duas caravanas de manifestantes, uma do PS, que seguia em direcção indefinida e, outra do PSD, que andava às voltas. O indivíduo do megafone e da bandeira branca clamava distintamente, ora para a caravana dos do PS ora para a caravana dos do PSD, num tom messiânico:
«Eu não podia sentir-me mais à margem deste espectáculo. Será por isso que o considero triste? Eu não faço parte desta sociedade? Não me identifico com ela? Não me comprometo com ela? Não gosto dela? Se pudesse estava noutro sítio, com outras pessoas? Por favor, responda quem souber. Não pensem que não sou político dos sete costados ou que não tenho partido. O meu partido é não ter nenhum dos partidos existentes. Passividade não é comigo. E, quanto a ir votar, preciso de mais alternativas para me sentir livre. Ouviram? Livre. De Liberdade. O voto em branco é pouco. A abstenção, os mentores do sistema político converteram-na em nada, assim como os votos nulos.
Sou político, tenho política e a minha política é esta: deixem de manipular as pessoas pelos medos, tentem manipulá-las pelas genuínas alegrias e direitos. Não lhes acenem com direitos com o objectivo, dissimulado, de lhes cobrar obrigações e deveres. A democracia só não perdeu completamente o significado de poder exercido pelo povo, não porque os políticos, a classe política, o represente legitimamente, mas porque, apesar desta incongruência grave, o povo vai exercendo o seu poder por outras formas, pagando os custos elevados de todas, porque, na realidade o dito povo paga aos políticos para exercer o poder que não exerce e paga o contra poder para fazer face aos mesmos políticos que contra si o exercem.»
Julgo ter percebido bem estas últimas palavras, mas não garanto, porque as caravanas dos manifestantes faziam cada vez mais barulho, com claxons, apitos e altifalantes, com o objectivo aparente de abafarem o som do megafone.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Calhamaços da cachaporra
Desceu a rua dos caçadores de mejengras
Virou pela travessa dos lumbricimorfos
Da choldraboldra chegou à trapizonda
Da mixórdia
Viu demónios farmacopoleando
O fogo fátuo
Ventríloquos do trovão
Alquimistas dos espíritos da centopeia
De cobra em campo
De campainha em cabra
De cadela em cão
Seguiu pela avenida dos trambalazanas
Da balbúrdia
Por todo o lado pufismos mirabolantes
Levou com estilhaços da histeria
Foi atacado por fanfarras
Cabotinos em estertores de delírio
Atrelou-se a uma cega que
Indiferente tacteava
Deixou-se guiar por quem
Ele guiava
E quando chegaram ao outro lado
Ele não sabia onde estava
Não trocaram palavra
Ela seguiu pelo beco da atoarda
Ele ficou ali
Numa encruzilhada
Em calhamaços da cachaporra
Triturantes do lírio
A ouvir os guinchos das charruas
Danadas
Esventrando almas penadas
E não podia pousar a cabeça
Em nenhuma almofada
A cambalear peão a fugir
Da girândola trampolineira
Dos masturbadores da exaustão
Quem lhe dera descansar
Alfim acrato no puído chão.
Virou pela travessa dos lumbricimorfos
Da choldraboldra chegou à trapizonda
Da mixórdia
Viu demónios farmacopoleando
O fogo fátuo
Ventríloquos do trovão
Alquimistas dos espíritos da centopeia
De cobra em campo
De campainha em cabra
De cadela em cão
Seguiu pela avenida dos trambalazanas
Da balbúrdia
Por todo o lado pufismos mirabolantes
Levou com estilhaços da histeria
Foi atacado por fanfarras
Cabotinos em estertores de delírio
Atrelou-se a uma cega que
Indiferente tacteava
Deixou-se guiar por quem
Ele guiava
E quando chegaram ao outro lado
Ele não sabia onde estava
Não trocaram palavra
Ela seguiu pelo beco da atoarda
Ele ficou ali
Numa encruzilhada
Em calhamaços da cachaporra
Triturantes do lírio
A ouvir os guinchos das charruas
Danadas
Esventrando almas penadas
E não podia pousar a cabeça
Em nenhuma almofada
A cambalear peão a fugir
Da girândola trampolineira
Dos masturbadores da exaustão
Quem lhe dera descansar
Alfim acrato no puído chão.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
A verdade
A verdade que podemos encontrar numa enciclopédia sobre a Verdade não está na enciclopédia,
nem nas bibliotecas e
não é a Verdade. Esta é a verdade.
É? E depois?
Continuamos a procurar a verdade,
mesmo falando verdade
e não a encontramos?
E se a verdade for desagradável? Dolorosa? Insuportável?
Queremos sempre a verdade?
E se a verdade é contra nós?
Que verdade, ou verdades, nos interessam?
Detestamos a mentira, mas há as meias verdades
e a verdade das partes
e a verdade do todo,
mas a verdade não está nas partes
e não está no todo.
A verdade, em última análise, é absoluta: ou é ou não é;
se é, é para todos e para todas as inteligências.
É ou devia ser?
Devia?
Porquê?
Um juiz disse-me que só o que está no processo é que está no mundo,
a verdade dele é aquela.
Um tipo que eu tenho por cientista diz-me que só o que é
verificável, mensurável, empiricamente, merece crédito.
Esta é a sua verdade.
Um poeta proclamou que «quanto mais poético mais verdadeiro».
A verdade do filósofo
com quem falei
é um veredicto,
são juízos sobre os próprios juízos,
sobre a contenda entre falso e verdadeiro
entre a ideia e a coisa,
embora saliente que ao filósofo interessa uma interpretação cósmica da sua experiência interior e
que essa interpretação, qualquer que ela seja, não é a verdade.
O meu pároco diz que Deus é a Verdade,
que as verdades do cientista e do juiz e do filósofo são juízos sobre coisas, factos, acontecimentos, acções e ideias.
A verdade não é conhecimento nem doutrinas teóricas que, como tais, se possam comunicar.
A alma tende para a contemplação da verdade,
para a pura contemplação,
sem pensar anotar o que contempla para disso se separar e representar isso sob uma forma «válida em geral» com a qual todos pudessem enriquecer o seu saber.
Cada pessoa permanece “fora” de interpretações e esquemas analíticos e nunca lhes está submetido; quando quer conhecer-se a si próprio, não é no homem em si, numa teoria da sua vida que se revê e o que lhe vem do íntimo não carece de explicação alguma.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Escuto as dores do mar
É nessas dores que se banha a lua
Nem todas as janelas já estão fechadas
As dores do mar
O balançar das árvores ao alto
É nessas cores que a torda da alegria
Perde peso
E a alma de magreza voa
Do mar
A olímpica fantasia
Que atordoa
Quem poderá domar?
Nem todas as janelas já estão fechadas
As dores do mar
O balançar das árvores ao alto
É nessas cores que a torda da alegria
Perde peso
E a alma de magreza voa
Do mar
A olímpica fantasia
Que atordoa
Quem poderá domar?
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Quando se está debaixo
Quando se está
debaixo
das botifarras do bicho de sete cabeças
não há nenhuma porca de sete
mamas
que valha ao espezinhado
gente que está
por todo o lado
e luta até à morte
todos os dias
num confronto
forte
entre David e
Golias.
domingo, 20 de abril de 2014
O homem não sabe o que quer
Eis o problema:
o homem não sabe o que quer, nem para si próprio, quanto mais para os outros...
E, supondo que as pessoas têm uma vontade e objectivos para os outros, para a história, para o mundo, para a Humanidade, um desejo, sonho (projecto é diferente e, certamente, não existe um projecto com essas características, individual ou colectivo) que as transcende, então aí o que sabemos é pouco e o que não sabemos é incomensurável (e que certeza temos disto?).
sábado, 19 de abril de 2014
Começar e acabar
Começas de uma forma
E acabas da forma como começaste
Tu não envelheces nunca
Por isso é que não envelheceste
Olhas de um modo fixo
Não como se tivesses morrido
Mas como se morresses eternamente
Se dessem a uma mãe um bebé assim
Ela enlouquecia
Tu só não rejuvenesces
Porque foste sempre o começo da idade
Em ti nada acontece
O tempo não é
Se não
Tenho a certeza
De que rejuvenescerias ao máximo
Ao ponto em que estás
Que é aquele em que todos e tudo
Depositaram a espera
Em que tudo e todos ainda
Não começaram.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Livro-me de ser julgado
A minha ideia avança
Meu medo
Não é nenhum
A minha praia
Sou uma criança
Um por todos
E todos por um
Palavras
Faço com elas
O que me aprouver
Mas livro-me
De ser julgado
Pelo que disser.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Povoado de sombras
Está sol
E
Num grande largo povoado
De sombras
Um pregador sob uma árvore
Adverte em nome do bem
Como um sol que faz
Desaparecer sombras
No canto de lá
Um propagandista reclama
Liberdade
Como um sol que faz
Sombras.
E
Num grande largo povoado
De sombras
Um pregador sob uma árvore
Adverte em nome do bem
Como um sol que faz
Desaparecer sombras
No canto de lá
Um propagandista reclama
Liberdade
Como um sol que faz
Sombras.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Adega TóNel
No ponto mais setentrional das névoas perpétuas
No informe aglomerado de construções à chuva
Uma placa diz cidade e começam as galerias
De uma tarde na adega tonel
Que vai desembocar nesta folha de papel
E deparar sem saída com a porca
Das sete mamas de um cardápio virtual
Suspenso dos chifres de um bicho
De sete cabeças em espiral
Drapejando ruidosamente.
sábado, 5 de abril de 2014
E-lá-se-foi
Um pássaro lindo
Voou ao contrário
Sugado por uma lembrança
De caminho andado
Mão dada
Numa eterna dança
Entre invernos sem ilusões
Um gato à chuva
Lá se foi
Platão
Eva
E Adão
Num jardim
Que não conheceis
De rosas em vasos imaginados
Mas que estão mortas
Há muito
No chão
Para onde cospe
O vilão
E dejecta
O fanfarrão.
Voou ao contrário
Sugado por uma lembrança
De caminho andado
Mão dada
Numa eterna dança
Entre invernos sem ilusões
Um gato à chuva
Lá se foi
Platão
Eva
E Adão
Num jardim
Que não conheceis
De rosas em vasos imaginados
Mas que estão mortas
Há muito
No chão
Para onde cospe
O vilão
E dejecta
O fanfarrão.
terça-feira, 1 de abril de 2014
Não vá a cerveja acabar
Se não precisas do sentido das proporções
Para fruir
Para fazer arte precisas de algo mais
Do que cuspir
Cores e pensamentos
Ou notas musicais
Música pintura ideias e poemas
São algo mais
Que uma desordem
Ou uma ordem que te é imposta
Mesmo se forem o caos
Que não te obedece
Amálgamas são atrocidades
Cometidas contra a fragilidade
Do que arrebita
Sobre a estrumeira informe
Anunciando ao optimismo
A esperança
Enquanto o pessimismo
Dorme
Se souberes cantar
Canta
Não vá o mundo acabar.
domingo, 30 de março de 2014
Encontrei-te
Encontrei-te na multidão de mulheres que se despiam
Onde respirar a atmosfera dos seus seios
Vozes que lembrei mais tarde
Te pertenciam
Rostos que te dei
Desencantei-os
Partidas que nos deixam
Sem rodeios
A meio da discussão
Com o vento.
quarta-feira, 26 de março de 2014
Lema
Todo o poema
Não devia ser escrito de outra forma
Nenhum poema devia ser escrito
De forma diferente
E quem diz poema
Diz tudo o que é literatura
Nenhum poema está errado
Nenhum poema está certo
Certo ou errado
Não é coisa de poema
Nem de literatura
Nenhum poema está bem
Ou mal escrito
O poema é o que é
E não o que não é
Se alguém quiser escrever diferente
Pode
Mas isso é outra coisa
Se alguém comparar poemas
Pode
Mas para que serve comparar
Coisas diferentes
O valor de um texto literário
Não é tudo
Uma vez li um poema criativo
Mas não tinha mais nada
Outra vez
Li uma história originalíssima
Mas não tinha mais nada
Muitas vezes
Li textos cheios de erudição
E nenhuma literatura
Poemas com as filosofias
Todas excepto a minha
Mas não eram poesia…
sexta-feira, 21 de março de 2014
Nós hoje
Órfãos de alguma espécie de apostolado
Estamos cercados
De falas
Como é difícil ao espectro
ficar calado!
Como é difícil ao espectro
Dizeres que o calas!
Como é difícil ao dinheiro
Não o gastar
A um poluente
Não o usar
Não ter uma sombra
E monologar
A campo aberto
Merdar!
Como é difícil estar certo
Não querer
Moeda falsa
Para poder
Ofertar!
Trabalhar cansa
E não acaba
Se a vida não se vence
Para quê lutar?
Dai-me a luxúria
Sem corpo
Da ideia
Vazia
Ou o eco
Dos limites.
Estamos cercados
De falas
Como é difícil ao espectro
ficar calado!
Como é difícil ao espectro
Dizeres que o calas!
Como é difícil ao dinheiro
Não o gastar
A um poluente
Não o usar
Não ter uma sombra
E monologar
A campo aberto
Merdar!
Como é difícil estar certo
Não querer
Moeda falsa
Para poder
Ofertar!
Trabalhar cansa
E não acaba
Se a vida não se vence
Para quê lutar?
Dai-me a luxúria
Sem corpo
Da ideia
Vazia
Ou o eco
Dos limites.
Carlos Ricardo Soares
quinta-feira, 20 de março de 2014
Tentações
Antes de escurecer
Desceste
Do trono
Para ver-te solta
E sentires-te confiada
Aos meus olhos
Ébrios da tua graça
Dos goles
Da tua taça
Enquanto davas
Passos desnorteantes
Para seres entronizada
Num reinado
De tentações.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Todos os sinais
O silêncio não tem hora
Mas tem becos
Onde mora
Ninguém
Casas com tectos
Sem portas
A horas mortas
Nem tectos tem.
domingo, 16 de março de 2014
Implicações
Não te sintas à beira do abismo
Se te oferecer dinheiro
Como
Se te oferecesse beijos
Não te zangues
Se te convidar
Na paisagem esquecida e bravia
Da tua alma
A tornares-te desesperadamente
Consciente
Da tua nudez
Dando-me beijos
Como
Se me oferecesses dinheiro.
sábado, 15 de março de 2014
Pódio
Sobe ao pódio dos teus pés
Que o prémio te sinta
Mesmo que não sejas vencedor
Te diga que o és
Canta o hino
Que aprenderes
A olhar para longe
Do que fores
Capaz
Que o silêncio
No fim
Seja murmúrio
De paz.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Ao amor desconhecido
Se tivesses uma morada ou telefone
Que eu soubesse
Um telemóvel ou e-mail que
Provavelmente tens
É improvável que escrevesse esta carta sem endereço
Nem sequer a escreveria
Faço-o porque não te conheço
E sou fiel
Ao sonho e mais profundo desejo
Sem trair o anjo do meu cortejo
E sem temer
Vir-me a arrepender
Pelo menos enquanto não te encontrar
Se tivesse dúvidas sobre o ridículo das cartas de amor
Elas cessariam com esta
Não por ser simples carta de amor
Mas por ser ao amor desconhecido
Que confiança pode merecer-te alguém que viveu
Oitenta anos sem te ter tido
Ou que o afirma
Mais indigno de ti
Quem diz que amou sem te conhecer
Ou quem não amou à espera que isso acontecesse
Mas tu não vieste?
quarta-feira, 12 de março de 2014
É de mim
Falo daquelas ruínas
e é de mim
do que os nossos olhos não viram
daquelas matérias-primas
a propósito da construção
do mundo
do que restou
dos perigos
que é muito
que é imenso
mas não basta
quando falo dessas coisas
de factos e mais
de ausências cruciais
inexistências
como se falasse de aparências
sem alegria
como se a poesia fosse o que falta
à fantasia
como se a fantasia fosse um estaleiro
de sucata
que avistamos da janela
da prisão perpétua.
sábado, 8 de março de 2014
O sonho é vago mas a luz é forte
O sonho é vago
Mas a luz é forte
No mar de faúlhas
Lágrimas de sol poente
A vida passa
No horizonte de asas
Efémeras e tranquilas
De uma gaivota branca
Respira coração respira
Como se existisses desde sempre
Na alma do mundo
E nunca te esquecesses
E avista para lá das nuvens
O azul do céu mais matinal
Porque eu sei que um sonho
É feito de muita ternura natural
É quando te digo meu amor
E me enriqueço tanto por te ter
É quando desejo que o fragor das ondas
Seja um hino todo nosso até morrer.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Horizontes
A noite tem horizontes
De olhos doces
Como o vapor da sopa
No inverno
Luzes astrais
No tecto falso
Alcance ultramoderno
Dentro de muros
Medievais
Quem mandou construir o castelo
Não chegou a vê-lo
Dentro da noite
A escadaria
Termina
Num oratório
As sombras indecisas
Sem interior
Como azulejos
Ao gosto
Da época
Revestem
As paredes
Que restam.
Carlos Ricardo Soares
domingo, 2 de março de 2014
As línguas do amor
Por favor
Fala-me todas as línguas
Do amor
Que há-de haver alguma
Que eu compreenda
Se me falares só uma
Talvez a não entenda
Se houver uma escola
De línguas do amor
Ou de amor
Ou ao menos de uma das línguas
Do amor
Eu quero aprender
O amor fala todas as línguas
Que nós desconhecemos.
Carlos Ricardo Soares
sábado, 1 de março de 2014
Não deixes
Não deixes que a palavra te corrompa
Como uma moeda falsa que depões
Na mão do diabo disfarçado de mendigo
Não deixes que a palavra se alimente da tua alma
Como um salmo se hospeda num sepulcro
E te enlouqueça e te leve o corpo
Não deixes que te o tire te o esqueça
E te converta em espectro caiado
Sem sede nem fome
Sem nascente nem ocaso
Sem nome.
Carlos Ricardo Soares
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Sinto-me triste
Estou triste
Sinto-me triste
Nas conclusões que tiro
Até das coisas mais lindas
Que tem a vida
Sinto-me triste
Por não sentir alegria
Só de pensar
Que as histórias
Não têm final feliz.
O meu amor por ti
O meu amor por ti
Não é de perguntas
E de respostas
Não é estado
Nem condição
Triunfo
De coisa nenhuma
Canção
Por ti
Meu amor
Incrível flor
Sem terra
Que se abre
Débil
Esperança no deserto
Mais que o eco
Sobrevive
A certezas
Costumadas
Às palavras
Ao vento
À canção
Que mais ninguém ouve.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Caçador de manuscritos
Olho para este tempo de chuva
observo ventanias e ondulações
noite e dia à espera
da hora
de desfraldar as velas
e esquecer Palermo
precipitar-me-ei sobre manuscritos
onde reis depostos
fazem guerras para reconquistar
vésperas de terramotos
exortarei religiosos
a traduzirem suas vidas
em versões
dos livros sagrados
e aos homens de ciência
conferirei o poder
que não têm
para aceitarem a realidade
exceto a dos erros cometidos
que possam ser corrigidos
e exortarei a saberem lidar
objetivamente
com conhecimento
e ciência do bem e do mal
sem cederem à tentação
de manipularem os elementos
para qualquer fim
neste retiro forçado
noite e dia à espera
da hora
de desfraldar as velas
e esquecer Palermo.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
O meu corpo
Agora
Deito o meu corpo
Cansado
O meu corpo
Que nunca foi
E não merece ser
Tratado como um fardo
Deito-o
Com cuidado
Que ele já não me ouve
Nem se segura
Do princípio ao fim
Da vida breve
Não o sinto pesado
Nem leve
Nem sei se dá por mim
É um corpo calado
Que nada me deve
E é tão bom assim.
Deito o meu corpo
Cansado
O meu corpo
Que nunca foi
E não merece ser
Tratado como um fardo
Deito-o
Com cuidado
Que ele já não me ouve
Nem se segura
Do princípio ao fim
Da vida breve
Não o sinto pesado
Nem leve
Nem sei se dá por mim
É um corpo calado
Que nada me deve
E é tão bom assim.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
O meu sonho
Ao olhar para a agenda pus-me a reflectir sobre as tarefas marcadas para este dia e perdi-me em pensamentos sobre as minhas origens e como tenho sido, desde sempre, um homem sem sonhos (se é que eu, por não ter sonhos, compreendo o que isso é).
A primeira coisa que me ocorreu ao ver que tinha de apresentar-me no posto da GNR às 14:30h, foi que, aos oitenta anos, eu podia ser preso por crimes que nunca cometi. De repente, este pensamento tomou-me completamente ao ponto de eu esquecer que a minha morte que o meu médico tinha agendada devia preocupar-me mais. Nem sei se houve algum motivo inconsciente para que deixasse de anotar na agenda o facto previsto (com data marcada) da minha morte. Se calhar foi porque numa agenda só devem constar coisas da vida. É capaz de haver quem consiga explicar lindamente estas curiosidades.
E, sem me aperceber, acabei por embrenhar-me em profundas meditações sobre os meus pais e os meus primeiros tempos de vida. Éramos uma família rica. Diria até, podre de rica. Faltava-nos o que não tínhamos, e que era imenso, como a toda a gente, mas tínhamos muitas coisas que faltavam à esmagadora maioria da população. Ouro tínhamos muito. Sonhos, que eu saiba, nenhuns. Ignoro se alguma vez estes nos fizeram falta, aos meus pais e a mim. Nem quando ouvia continuamente na rádio uma cançonetista ligeira repetir em notas alegres que não tinha ouro mas tinha tudo porque tinha sonhos. Hoje, interrogo-me sem saber a razão de o meu cavalo lusitano, que eu montava com cinco anos de idade, se chamar Sonho. Só os meus amigos percebiam que era de um cavalo que se tratava quando eu dizia que cavalgava o Sonho.
Um dia, referindo-se a um homem andrajoso que percorria as freguesias a pedir esmolas e que eu admirava por, na sua simplicidade, dizer poesias em tom profético e magistral, Valquíria, a mulher mais velha da quinta, que já servira no tempo dos meus avós, segredou-me, convicta da minha cumplicidade, que aquele homem era muito rico porque tinha um sonho.
Eu sempre quis ter um sonho, porque parecia evidente que isso era o melhor que se pode ter. E dizia-o sem rebuço. Até nas minhas orações, sobretudo quando a vida corria mal, eu pedia a Deus que me desse um sonho. À medida que os anos passavam e que eu tinha cada vez mais tudo o que queria, mais intensa e perplexa era a minha necessidade, o meu desejo, de ter aquilo que todos tinham sem dificuldade e que eu nem com rezas conseguia.
No meu décimo aniversário, quando o meu avô perguntou o que eu queria de prenda, não pensei no regresso da minha querida mãe, que tinha abalado há menos de um ano e nos deixara inconsolavelmente inconformados e infelizes. Disse-lhe simplesmente que queria ter um sonho.
Ele não mostrou surpresa. Sorriu com um sorriso de compreensão que me deixou confortado e, por fim, disse «também vivi até hoje com esse sonho». O meu avô tinha setenta anos. Era um poeta que nunca vi a escrever ou a ler versos que tivesse escrito.
Não tenho a certeza de ter compreendido o alcance da resposta que o avô me deu. Uns anos mais tarde, uma miúda cujo nome não esqueci mas não vou revelar e que eu achava a única rapariga digna de ser considerada bela, cruzou-se comigo no escuro do corredor de acesso à biblioteca do liceu, encostou-me um dedo ao umbigo e de olhos fulminantes atirou: «todas as raparigas sonham com um rapaz como tu!».
Há coisas que têm mais ou menos influência e repercussões na vida das pessoas. A minha vida foi definitivamente marcada por este episódio. E ainda agora me surpreendo a tirar ilações desse acontecimento: ela não disse que eu era o sonho de todas as raparigas, nem que eu era o sonho dela.
A tosse cavernosa do reitor, que saiu do seu gabinete a escassos passos de nós, anulou a minha tentativa de fazer algo mais que ficar calado. E a única rapariga digna de ser considerada bela foi embora sem saber o que eu lhe teria dito.
Desse episódio a imagem que guardo com mais nitidez é a do reitor envolto numa nuvem de fumo de tabaco a expelir relâmpagos de um cigarro seguidos do trovejar assustador da última vez que tossiu.
Não estive nas cerimónias fúnebres.
A primeira coisa que me ocorreu ao ver que tinha de apresentar-me no posto da GNR às 14:30h, foi que, aos oitenta anos, eu podia ser preso por crimes que nunca cometi. De repente, este pensamento tomou-me completamente ao ponto de eu esquecer que a minha morte que o meu médico tinha agendada devia preocupar-me mais. Nem sei se houve algum motivo inconsciente para que deixasse de anotar na agenda o facto previsto (com data marcada) da minha morte. Se calhar foi porque numa agenda só devem constar coisas da vida. É capaz de haver quem consiga explicar lindamente estas curiosidades.
E, sem me aperceber, acabei por embrenhar-me em profundas meditações sobre os meus pais e os meus primeiros tempos de vida. Éramos uma família rica. Diria até, podre de rica. Faltava-nos o que não tínhamos, e que era imenso, como a toda a gente, mas tínhamos muitas coisas que faltavam à esmagadora maioria da população. Ouro tínhamos muito. Sonhos, que eu saiba, nenhuns. Ignoro se alguma vez estes nos fizeram falta, aos meus pais e a mim. Nem quando ouvia continuamente na rádio uma cançonetista ligeira repetir em notas alegres que não tinha ouro mas tinha tudo porque tinha sonhos. Hoje, interrogo-me sem saber a razão de o meu cavalo lusitano, que eu montava com cinco anos de idade, se chamar Sonho. Só os meus amigos percebiam que era de um cavalo que se tratava quando eu dizia que cavalgava o Sonho.
Um dia, referindo-se a um homem andrajoso que percorria as freguesias a pedir esmolas e que eu admirava por, na sua simplicidade, dizer poesias em tom profético e magistral, Valquíria, a mulher mais velha da quinta, que já servira no tempo dos meus avós, segredou-me, convicta da minha cumplicidade, que aquele homem era muito rico porque tinha um sonho.
Eu sempre quis ter um sonho, porque parecia evidente que isso era o melhor que se pode ter. E dizia-o sem rebuço. Até nas minhas orações, sobretudo quando a vida corria mal, eu pedia a Deus que me desse um sonho. À medida que os anos passavam e que eu tinha cada vez mais tudo o que queria, mais intensa e perplexa era a minha necessidade, o meu desejo, de ter aquilo que todos tinham sem dificuldade e que eu nem com rezas conseguia.
No meu décimo aniversário, quando o meu avô perguntou o que eu queria de prenda, não pensei no regresso da minha querida mãe, que tinha abalado há menos de um ano e nos deixara inconsolavelmente inconformados e infelizes. Disse-lhe simplesmente que queria ter um sonho.
Ele não mostrou surpresa. Sorriu com um sorriso de compreensão que me deixou confortado e, por fim, disse «também vivi até hoje com esse sonho». O meu avô tinha setenta anos. Era um poeta que nunca vi a escrever ou a ler versos que tivesse escrito.
Não tenho a certeza de ter compreendido o alcance da resposta que o avô me deu. Uns anos mais tarde, uma miúda cujo nome não esqueci mas não vou revelar e que eu achava a única rapariga digna de ser considerada bela, cruzou-se comigo no escuro do corredor de acesso à biblioteca do liceu, encostou-me um dedo ao umbigo e de olhos fulminantes atirou: «todas as raparigas sonham com um rapaz como tu!».
Há coisas que têm mais ou menos influência e repercussões na vida das pessoas. A minha vida foi definitivamente marcada por este episódio. E ainda agora me surpreendo a tirar ilações desse acontecimento: ela não disse que eu era o sonho de todas as raparigas, nem que eu era o sonho dela.
A tosse cavernosa do reitor, que saiu do seu gabinete a escassos passos de nós, anulou a minha tentativa de fazer algo mais que ficar calado. E a única rapariga digna de ser considerada bela foi embora sem saber o que eu lhe teria dito.
Desse episódio a imagem que guardo com mais nitidez é a do reitor envolto numa nuvem de fumo de tabaco a expelir relâmpagos de um cigarro seguidos do trovejar assustador da última vez que tossiu.
Não estive nas cerimónias fúnebres.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Sonhar quem és
Não chegarás a conhecer-te se não
Sonhares quem és nem pátria
Nem história te dirão nada
Do que vês
Nenhum poema será o poema
Da esperança de ser
A tua vez
A única verdade
Que a tua razão não é capaz
De ignorar completamente
Faz de ti infinitamente mais
Do que um oceano a quem falas
Como se fosse o teu irmão morto
Que tão pouco morreu
E sequer ouve
Quando o invocas por tu
E no eco da tua voz
Encontras as palavras perdidas.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Perdi-me nas tardes de Verão
Desiste de procurar-me
Nem eu sei
Onde me perdi
Nas tardes de Verão
Onde perdi o livro
Que andava a escrever
Sobre as tardes de Verão
Em que me perdi
Antes de te encontrar
Se fosse numa ilha
Era fácil partir do princípio
De que só podia estar lá
Mas foi num continente
Que não existe
E nisto nunca irás acreditar.
sábado, 25 de janeiro de 2014
A alegria por mais pequenina que seja
Naquela altura
eu não sabia
do futuro
se ninguém sabia
nem de si
quanto mais de mim
e do futuro
que nem sequer existia
o que eu queria
era pouco
mas muito
quase tudo
para mim
cada dia
como o sol queria
uma montanha
para ir subindo
além
eu não seria capaz
de partir
por nenhuma razão
ninguém me prometeu
ou deu esperanças
nem eu
porque a esperança
não existia
existiam pessoas
como eu
e de esperança
só sentia
que a alegria
por mais pequenina que seja
é mais forte
que a maior desgraça
mas que também
fraqueja.
eu não sabia
do futuro
se ninguém sabia
nem de si
quanto mais de mim
e do futuro
que nem sequer existia
o que eu queria
era pouco
mas muito
quase tudo
para mim
cada dia
como o sol queria
uma montanha
para ir subindo
além
eu não seria capaz
de partir
por nenhuma razão
ninguém me prometeu
ou deu esperanças
nem eu
porque a esperança
não existia
existiam pessoas
como eu
e de esperança
só sentia
que a alegria
por mais pequenina que seja
é mais forte
que a maior desgraça
fraqueja.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Quando olho é como se já não visse
Quando olho é como se
já não visse
por ser tão longe e
tão profundo
o significado em que
tudo o que vejo
se tornou
nesta surpresa que
sempre procurei
quando acreditava que
o futuro
era o tempo de
realizar sonhos
que o presente então
ao meu esforço negou
eu olhava e era como se não visse
por não ser preciso
mesmo assim eu queria
ver
o significado em que
tudo se tornaria
o presente me dá
quase sem eu querer
quando olho como se
já não visse
o que desejava ver.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Tudo está errado
Fui feliz onde vivi
Cada momento como se não houvesse outro
Olho o que se me oferece
Não escolho ver
Para além do que conheço
Contemplo se me apetece
Se não
Está errado o que existe?
Está errada a forma
Como vemos
E como sentimos
E como pensamos
E como vivemos
Salvo erro
Tudo está errado
E é por isso
Que não podemos parar
De corrigir.
Cada momento como se não houvesse outro
Olho o que se me oferece
Não escolho ver
Para além do que conheço
Contemplo se me apetece
Se não
Está errado o que existe?
Está errada a forma
Como vemos
E como sentimos
E como pensamos
E como vivemos
Salvo erro
Tudo está errado
E é por isso
Que não podemos parar
De corrigir.
sábado, 11 de janeiro de 2014
Para que não se faça silêncio
Estamos à beira de qualquer coisa que não sabemos o que é
E não é noite
Fitamos o curso da vida e que aprendemos?
Com um sufoco de revolta na garganta
Não nos abraçamos
Ouvimos o canto dos pássaros
E blasfemamos
Temos as mãos próximas
E não as damos
Porque preferíamos que as estrelas
Não existissem
Tristes muito tristes vamos
Desconfiados das próprias sombras
Se amamos
Não nos lembramos
Se estamos vivos?
Estejamos
Porque temos medo
E raiva e ódio e desespero
A morte é pouco menos que isso
E arremessamos palavras
Para que não se faça silêncio.
E não é noite
Fitamos o curso da vida e que aprendemos?
Com um sufoco de revolta na garganta
Não nos abraçamos
Ouvimos o canto dos pássaros
E blasfemamos
Temos as mãos próximas
E não as damos
Porque preferíamos que as estrelas
Não existissem
Tristes muito tristes vamos
Desconfiados das próprias sombras
Se amamos
Não nos lembramos
Se estamos vivos?
Estejamos
Porque temos medo
E raiva e ódio e desespero
A morte é pouco menos que isso
E arremessamos palavras
Para que não se faça silêncio.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Conquistador
Recostei-me para pensar
Que os mansos dominarão a terra
E acabei deitado a falar sobre a morte
Para um gravador das câmaras
De vigilância da minha própria solidão
Dúvidas há quanto ao ressonar
Que se confunde com o desumidificador
Mas não quanto ao sonhar
Como um montanhista que tivesse caído
Pela garganta de um desfiladeiro
Ouvindo o desespero do próprio eco
E chorasse um choro verdadeiro
O momento em que falece
O conquistador
O momento da verdade
A derrocada estrondosa
De quantos quiseram impor
A sua vontade.
Que os mansos dominarão a terra
E acabei deitado a falar sobre a morte
Para um gravador das câmaras
De vigilância da minha própria solidão
Dúvidas há quanto ao ressonar
Que se confunde com o desumidificador
Mas não quanto ao sonhar
Como um montanhista que tivesse caído
Pela garganta de um desfiladeiro
Ouvindo o desespero do próprio eco
E chorasse um choro verdadeiro
O momento em que falece
O conquistador
O momento da verdade
A derrocada estrondosa
De quantos quiseram impor
A sua vontade.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Beijos que te quero dar
Os teus olhos são o riacho emboscado
Onde hortelãs selvagens proliferam
O Verão feliz que não voltei a ter
Os reflexos que me deram
A imagem do que quero ser
Esta cidade não é
O chão luxurioso
De açafrões e margaridas
À espera do vento
Para se polinizarem
Mas a noite é
Desse tempo
De luar e água
Se casarem
Sofri
Mas valeu a pena
Pelos desejos imensos
Que aprendi
A não saciar
Pelos beijos
Que te quero dar.
domingo, 29 de dezembro de 2013
Mundo em ruínas
Perdoem-me se rio
Enquanto caminho
No mundo
Em ruínas
De mãos dadas com uma mulher
Que resplandece
Perdoem-nos esta vontade
De viver
Galgando
Sonhos
Desfeitos
Até aos cumes do que acontece.
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