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quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Velha - XIII


Era alto e vergadiço como um salgueiro. Andava como se fosse gordo. Vestia-se como se o derradeiro inverno estivesse congelado no tempo. Falava mais depressa do que pensava e concluía sempre muito antes de chegar ao fim do raciocínio. Se fumava? Sim, fumava como uma chaminé e seguia o fumo até vê-lo… desaparecido. Nunca se tinha deitado com uma mulher. E sonhava escrever um poema.
No momento em que nasceu, sua mãe estava de pé e não o quis ver, alegando que estava morta. Foi um momento desumano, porque ela não morreu. A parteira compreendeu sem dificuldade as dores daquela mulher «também já fui assim!»-pensou, mas foi em vão que tentou compreender o choro do recém-nascido. 


quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Velha - XII



A agonia do Velha parecia interminável. Perguntava pelo Fernando Pessoa «onde estás Fernando? Ah, estás aqui. Estás parecido com uma fotografia que vem num livro, mas muito mais real. Tens meias brancas. Sempre achei que gostavas de meias tintas. Não sobra tempo para escrever. Passo a vida a viver e a sonhar. Talvez um dia me canse de viver e de sonhar e me entretenha a escrever. A escrever-te e a escrever-me. Se não morrer. Se no fim do sonho não estiver a morte». Dizia estas palavras num ritmo irregular e numa sequência algo obscura, aparentemente desconexas, mas ao reduzir a gravação a escrito, foi possível estabelecer, sem margem para dúvidas, a letra e o teor das últimas palavras que o Velha proferiu ainda em vida, como se já estivesse para lá de uma fronteira e o eco que se ouvia fosse numa língua tão desconhecida como o outro mundo.


domingo, 27 de junho de 2010

O Velha - XI




No momento da morte, o Velha agonizava profundamente… equivocado.  E toda a equipa liderada pelo médico Pedrinho se mantinha abismada num mutismo… de espanto. O Dr. Pedrinho soçobrava ao peso da memória de dezenas de moribundos, no leito de morte, como se quisessem despedir-se, olhando-o com estranheza, selando com o silêncio da morte palavras que teriam dito se o reconhecessem. Alguns fixavam-no e até pareciam acusá-lo de estarem a ser despedidos mas outros, nada disso.  
Apesar da insuportável dor, não queria sequer tentar impedir que lhe viessem à memória as últimas palavras de uma criança de quatro anos, que tinha sido colhida por um comboio, quando tentava colocar uma pedra sobre o carril. Não fosse a demora em estabilizá-la na linha férrea e não teria escasseado o tempo para retirar-se em segurança, com as duas pernas a salvo e vitoriosa da ousadia.
Entrou no bloco operatório, na tarde de um domingo de festa. Por todo o lado, a subida à primeira divisão dos Convictos Futebol Clube era festejada por multidões embriagadas. Os médicos de urgência mal tiveram tempo para ouvi-la dizer, numa voz que os fez arrepiar «mamã, vamos brincar?».
Passados minutos, o corpo estava frio. O Dr. Pedrinho sentou-se no canto da sala, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cara entre as mãos. Por fim, assoou-se e, recompondo-se, perguntou à Dr.ª Vitória «está a pensar no que vamos dizer e no modo como vamos dizer aos pais? Eles estão lá fora… talvez com esperança». A Dr.ª Vitória acenou com a cabeça, afirmativamente.


segunda-feira, 21 de junho de 2010

Não pretendo provar nada



Estou a falar para mim mesmo
Como se estivesse a falar aos outros
Não pretendo provar nada
Há coisas que tornam invisíveis
As que as rodeiam
Até coisas invisíveis
Que tornam invisíveis
As coisas visíveis
Que as rodeiam.